quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Magia de Umbanda – O que é Magia? – Tipos de Magia

O que é magia?

 Existem muitas definições para magia como manipulação de forças; como a capacidade de interagir com os elementos da natureza; como produzir uma ação por meio da vontade; ou a evocação de poderes e mistérios de maneira que os coloque a seu favor; ou a evocação de poderes, forças e mistérios para ajudar você ou outra pessoa.

 Há muitas definições para magia, mas às vezes por mais que a gente dê várias definições, para muitos ainda é difícil entender o que venha a ser magia e fica mais delicada ainda a diferença entre magia e religião.

Existe uma linha tênue entre o que é magia e o que é religião, até porque as religiões também possuem um viés mágico e as magias muitas vezes tem uma conotação religiosa.

Existem religiões mágicas, magias religiosas e religiões que mesmo não se considerando religiões mágicas têm uma influência da magia ou no seu ritual ou na sua origem. Existem vários olhares para explicar o que é magia, diferentes olhares e formas de entender.

Magia é manipulação de forças, é chamada de poderes, é chamada de entidades, a relação, a forma de evocar, de determinar. O praticante de magia  tem uma postura diferente da postura do religioso.

A pessoa que pratica magia é ativa, tem um contato direto com os mistérios aos quais está se submetendo/lidando, a pessoa que pratica magia trabalha direto com a divindade, com as forças, com os poderes, com os mistérios determinando, dando ordens mágicas, realizando ações mágicas com a finalidade de alcançar um objetivo.

A palavra mago hoje tem um peso tão grande que é difícil utilizar essa palavra porque quando você fala que alguém é um mago, já imaginam que ele tem que ser o Merlin com chapéu de Merlin com uma varinha na mão, com uma roupa esquisita e fazendo mágica de palco.

O mago, o praticante de magia é e pode ser uma pessoa comum que conhece técnicas de magia, essa é a questão.
 A postura do religioso é de reverência, de humildade, de quem está pedindo, clamando, se curvando. O religioso é aquele que está sempre pedindo, o praticante de magia é aquele que está determinando, a postura é diferente.

O religioso está sempre esperando que as coisas aconteçam sob a vontade de Deus, o praticante de magia está interferindo como elemento ativo e dependendo do segmento, o praticante de magia é o elemento ativo da vontade de Deus, o religioso é sempre um elemento passivo.

 A relação do religioso com o mistério Maior, na maioria das religiões, é de passividade e em muitas religiões o fiel, o religioso, não tem um contato direto com a divindade, entre ele e a divindade existe um intermediário: o sacerdote.

O praticante de magia tem contato direto.

Há uma ação mágica e uma ação religiosa: a ação religiosa é aquela que está trabalhando o seu íntimo, o seu lado interno; ação mágica está trabalhando o lado externo e aquilo que você quer conquistar, que você quer trabalhar ou aquilo que você quer cortar, anular, a energia que você quer descarregar, a entidade que você quer encaminhar, o trabalho que você quer desfazer, quer desamarrar. Isso é uma ação mágica e uma ação mágica em que você está manipulando elementos e sabe que, por meio daqueles elementos, você desamarra, corta, purifica, esgota, encaminha, quebra, desfaz.

Na ação religiosa você entra em contato com sagrado e pede que se for do seu merecimento, de forma direta, seja feito o que tiver de ser das suas necessidades, esse é o contato religioso.

O contato mágico implica num conhecimento, é uma ciência, uma arte real, a arte da magia, da prática da magia, ciência que implica o conhecimento de um objeto que está sendo trabalhado.

O religioso não precisa conhecer uma ciência, ele precisa ter uma doutrina, o religioso não é estudioso de ciência, o religioso é doutrinado é ovelha, o praticante de magia é leão.

 O religioso pode se tornar uma galinha, o praticante de magia deve ser uma águia. O religioso é passivo, o praticante de magia é ativo. A religiosidade é algo que acontece de dentro pra fora, a magia acontece de fora para dentro.

Rubens Saraceni diz que: “ A ação religiosa é uma ação que se desdobra a partir do lado interno da criação”.

O que tem no lado interno da criação?

O lado íntimo de Deus, o lado íntimo daquilo que é o sagrado e é desconhecido, onde a gente não penetra.

E o lado externo da criação?

É o mundo tal qual nós conhecemos com suas dimensões paralelas, com o lado espiritual, o material que é possível ver e relacionar-se.

Temos o lado interno e externo da criação e no lado externo a gente tem as realidades divinas que é aquela que se manifesta para nós, a natural das realidades naturais e paralelas e a realidade espiritual.

Nós nos relacionamos com seres naturais, com seres divinos e com seres espirituais isso é um conceito da obra de Rubens Saraceni em Teologia de Umbanda.

Na ação religiosa o meu lado interno se comunica com o lado interno do criador, com o lado interno da criação, é uma ação que se desdobra de dentro para fora.

Na ação mágica, o meu lado externo, a minha espiritualidade, minha relação com as divindades, com os seres naturais, com os elementos, com as forças, com os poderes, isso é o meu lado externo e está atuando, ou seja, há um desdobramento mágico que acontece no lado externo. Então, a ação religiosa é uma ação que acontece de dentro para fora e ação mágica que acontece do lado externo para o lado interno a partir do externo vai provocar mudanças que vão alterar o meu interno.

O religioso é submisso, reverente, humilde, aquele que se curva.

 O praticante de magia é ativo, ele determina e ele manipula.

Max Weber explica que a grande diferença entre religião e magia é: que a religião é a prática de uma comunidade e a magia é uma prática solitária, o religioso se estabelece em comunidades, se congrega, se une em torno de uma doutrina, de uma filosofia, de um Templo.

O praticante de magia realiza a sua arte, a sua ciência sozinho, de forma solitária, para ver como é difícil entender a diferença entre magia e religião, o Weber não entra no mérito de como é feita a prática, ele entra no mérito que religião é algo que congrega as pessoas, magia é algo que você pratica sozinho.

Essa é uma característica de que para praticar magia você não precisa de uma congregação, não precisa se congregar com as pessoas para praticar a magia você não precisa de um Templo para reunir pessoas, para praticar magia você não precisa de hierarquia religiosa, você não precisa de um sacerdote, você não precisa de uma doutrina porque a doutrinação envolve a maneira de conduzir um grupo.

A magia é uma prática que pode ser solitária porque ela dispensa toda organização do contexto religioso que implica em como conduzir uma comunidade, o praticante de magia tem um contato direto com o mistério, ele é ativo, determina, faz, realiza e ele não depende de ninguém, de nenhuma estrutura, de nenhuma hierarquia, ninguém está acima dele, ele tem um contato direto. Agora, os praticantes de magia podem se reunir, mas eles não dependem de uma reunião para realizar a sua arte mágica, mas eles podem se reunir.

Da mesma forma, os religiosos podem ter práticas mágicas, mais ou menos mágicas e aí entram as religiões mais ou menos mágicas.

 A Umbanda é uma religião mágica, o religioso de Umbanda não é alguém que fica apenas em atitude passiva, ele não vai ao Templo para sentar e ficar esperando de forma passiva, essa atitude passiva na Umbanda a gente só vê nos consulentes que não são exatamente a figura do religioso de Umbanda porque o consulente não precisa nem ser Umbandista, o consulente pode ser Católico, Judeu, Muçulmano, ateu – o consulente – e o consulente é passivo porque ele chega, senta no banquinho e ele fica esperando a hora de chegar sua consulta, o consulente é passivo.

 Esse consulente pode se tornar um religioso Umbandista passivo enquanto consulente, mas quando uma entidade falar para ele: “Meu filho, pra trazer fartura para sua vida, você pega uma moranga dá uma cozinhada nessa
moranga, tira a tampa de cima da moranga, abre ela, faz uma canjiquinha amarela cozida coloca dentro da moranga, coloca uns cravos da índia por cima, acenda uma vela verde de sete dias e coloque dentro dessa moranga oferece isso para Oxóssi, o Orixá do reino vegetal, dos vegetais e da fartura e pede para Oxóssi trazer fartura para sua vida, faça isso e como resultado você vai sentir uma melhora nesse campo”.

A entidade está ensinando magia, está falando: “Meu filho, pra abrir os seus caminhos vá até uma estrada, até um trilho de trem e faça uma oferenda pra Ogum”, esse consulente que é passivo, está aprendendo práticas mágicas, então, a religião é uma religião mágica.

Quando a gente olha uma religião como o Catolicismo, a gente pensa que é uma religião que se coloca frontalmente contra a magia e não tem prática nenhuma de magia. A gente pensa que no Catolicismo não existe magia porque historicamente o Catolicismo foi contra a magia, no entanto, o eixo central da religião, da ritualística Católica é a missa e na missa você transforma o vinho em sangue e o pão em carne, em corpo de Cristo.

E aí você pensa: “É, mas, o vinho não se torna sangue de fato e a hóstia não se torna carne de fato”, pois é, mas simbolicamente sim.

Simbolicamente aquele vinho não é mais visto como vinho e sim como o sangue de Cristo, simbolicamente a hóstia não é mais um pão, ela é o corpo de Cristo, a carne de Cristo, então, simbolicamente o vinho foi consagrado para tornar-se sangue de Cristo. E como? Por meio de um ritual.

 Na missa existe um ritual no qual você faz com que o vinho se torne sangue e com que o pão se torne carne, esse é um ritual mágico. A missa tem um ritual de magia que não pode ser explicado para os fiéis e só quem pode fazer esse ritual é o sacerdote, o fiel é passivo.
A religião Católica busca os fundamentos do Cristianismo é uma forma de Cristianismo, não é a única forma, ela revive a vida, a história, a filosofia de Jesus Cristo e na vida de Jesus é relatado, por exemplo, a multiplicação dos pães - é magia, o momento em que Jesus faz com que a água se torne vinho – é magia, Jesus levanta a mão e expulsa demônios ou espíritos imundos, seja lá qual for a tradução – é magia.

A linha é tênue entre magia e religião.

Muitas vezes o religioso, principalmente o Católico vai dizer assim: “O que Jesus fazia não era magia era milagre”. E nas outras religiões? “Ah nas outras religiões era magia”, então, a ação mágica da sua religião é um milagre e a ação mágica da outra religião é magia, é feitiçaria.

Atente para esse detalhe: que o religioso de outra religião quando não reconhece a presença divina e sagrada na sua religião ele diz que o que você faz é magia e feitiçaria porque ele não está reconhecendo que ali está Deus e ali tem algo sagrado.

No momento em que reconhece isso deixa de ser magia pra dizer: isso aí é um milagre, uma intercessão de Deus, mas um milagre é também uma ação mágica quando a pessoa que faz sabe o que está fazendo.

O que vem antes do Cristianismo?

 O Judaísmo.

 No Velho Testamento nós temos Moisés: “Moisés solta sete pragas no Egito. Foi um milagre que Deus operou”, é magia; “Moisés pega um cajado bate no morro e sai água”, é magia; “Moisés pega o cajado e joga no chão e o seu cajado se transforma numa cobra”, é magia. Não é milagre. Milagre é porque é da sua religião porque quando você olha de fora é magia, isso é magia. “Moisés bate o cajado no chão e abre o mar”, é uma ação mágica produzindo um efeito externo, isso acontece de fora para dentro, isso é magia. Moisés poderia operar tudo isso sozinho sem intercessão de ninguém, então isso é ação mágica.

Moisés diz: “Que todos os primogênitos no Egito irão morrer menos os filhos primogênitos dos semitas”, mas para isso todos fizeram sinal na porta da sua casa para que a morte não entrasse. Quem é a morte? É o Anjo da Morte.

Moisés evocou o Anjo da Morte, a presença do Anjo da Morte para levar a morte para todos os primogênitos dos Egito menos na casa dos semitas, por quê? Porque na porta de entrada eles colocaram um sinal, esse sinal é um sinal cabalístico, é um sinal que tem o poder, que tem uma força.

Ali há uma ciência, é magia.

Quem é Moisés?

 Moisés é um semita que foi criado como príncipe do Egito, foi criado para ser Egípcio, mas ele foge e se casa com Séfora passando a conviver com seu sogro, chamado Jetro, que é negro, Africano, passa a conviver com ele, vai aprender magia com Jetro, Moisés torna-se um grande praticante de magia e ele dá base de fundamentação para o Judaísmo tanto a base Judaica religiosa quanto a base Judaica Mística ou Mágica que está na Cabala ou na Cabalá. “Ah, então, o Judaísmo tem religião e magia?”. Sim. O Judaísmo tem uma vertente mais religiosa e uma vertente mais mágica.

As religiões possuem a vertente mágica também que é relacionada com a mística e a parte que a gente chama de mediúnica.


 Embora uma coisa não dependa da outra: o ato mediúnico não depende do ato mágico e o ato místico não é necessariamente um ato mágico. O ato místico é o encontro com a deidade, o ato místico é quando você e a divindade se tornam um, então, o transe mediúnico tem viés místico.

Os místicos também tem um viés mágico que é o de conhecer de perto a divindade e por meio desse conhecer, manipular forças e poderes, mistérios e etc.

Mas, voltando ao Judaísmo, o Judaísmo tem um viés mágico que é trabalhado na Cabala ou Cabalá Hebraica, na Cabala Hebraica se estuda a mística ou a magia do Judaísmo que é antiguíssima e que é uma magia que remonta, por exemplo, a Moisés que é alguém que estudou Magia Egípcia, que estudou a magia Africana de Jetro que é uma forma de Xamanismo Africano, que estudou a Magia Semita que já descende de Abrahão que vem de uma cultura mágica religiosa.

Moisés dá esse fundamento mágico religioso, mas Moisés dá a base religiosa para o seu povo ser pacífico e passivo pelo fato de Moisés ter contato direto com Deus. Mas, sempre existe um grupo mais próximo em que vai se ensinar a arte real, a magia, por isso Jesus tinha doze discípulos. Jesus tinha doze discípulos diretos, por quê? Para que ter discípulos diretos? Porque alguma coisa ele ensinava para esses discípulos que não chegava para o resto da população.

O ensinamento mais próximo, fechado, é um ensinamento mágico, místico, é aquele ensinamento que para você transmitir para alguém esse alguém tem que assumir uma responsabilidade, é um ensinamento que, para ser passado, implica em uma iniciação.

Jesus iniciou doze discípulos e pelo menos uma discípula que se tem notícia: Maria Madalena que era muito querida a Jesus, amada a Jesus e o que fica evidente e claro nos Evangélicos Apócrifos e com certeza ele também deve ter iniciado a sua mãe Maria, então, Maria Madalena, Maria sua mãe e provavelmente outra Maria, irmã de sua mãe, que juntas são as três Marias, provavelmente no mínimo ele iniciou três Marias daí ser tão forte o nome Maria no contexto religioso Cristão.

Essa iniciação diz respeito a um contato direto com o mistério, com o poder, o ensino de uma ciência fechada, de um conhecimento secreto. Esses discípulos de Jesus iniciaram outros, que iniciaram outros, que iniciaram outros e que geraram uma hierarquia que em religião é a hierarquia sacerdotal e em magia é iniciação.

Na Cabala Hebraica existem iniciações para que você possa trabalhar. Antigamente, para um Judeu praticar Cabala tinha que ser homem, maior de quarenta anos e casado e não bastava ser homem tinha que ser o primogênito.

Antigamente um praticante de Cabala só podia ensinar Cabala para o seu primogênito homem no momento em que ele estivesse com quarenta anos e fosse um homem casado, por quê?

 Porque esse era um conhecimento secreto considerado algo muito delicado que para trabalhar com esse conhecimento você precisa ter maturidade. Então, a magia foi tratada dessa maneira como segredo por muitas culturas, no Judaísmo as práticas de magia estão na Cabala.

A Cabala estuda a magia que há nessa religião, nessa cultura, é um fato que existe magia na religião Judaica, no Islã é o sufismo, no Cristianismo você tem o Gnosticismo e tem a alta magia dos Cristãos praticantes de magia.

A magia em si é algo que sempre existiu desde que o homem é homem, desde que o homem se torna homo sapiens ele pratica religião e também pratica magia de tal forma que ninguém pode dizer com certeza o que nasce primeiro: religião ou magia, as duas nascem juntas na vida do ser humano tanto a prática mágica quanto a prática religiosa.

Nós podemos afirmar sem medo de errar, categoricamente, que a primeira forma de manifestação religiosa, a forma mais antiga que nós temos conhecimento é o Xamanismo.

No Xamanismo você verifica o transe como prática básica do Xamã e em quase todas as formas de Xamanismo você vai identificar práticas mágicas, o Xamã é também um praticante de magia, nem todo praticante de magia é um Xamã porque nem todo praticante de magia trabalha a arte do êxtase ou do transe que é a arte do Xamã. Mas, quase todos os Xamãs têm práticas mágicas.

Quem é a figura do Xamã?

 Por exemplo, os Pajés Brasileiros indígenas todos eles são Xamãs e todos eles trabalham com ferramentas, com recursos de magia, com maraca, com fumo, com canto, com tambor, com erva, com reza de determinação mágica, isso é magia.

Antes da religião se tornar algo organizado, ela surge na prática Xamânica e com o tempo os grupos sociais vão dogmatizando, vão doutrinando, vão criando suas Teologias em cima da prática Xamânica ou da experiência Xamânica ou da experiência mística. Os grandes fundadores de religião como Cristo, como Moisés, como Buda e tantos outros são grandes místicos e muitos deles, místicos praticantes de magia, assim nascem as religiões.

A magia é algo natural para o ser humano. A gente vai encontrar práticas de magia em todas as culturas, assim como encontramos práticas religiosas em todas as culturas e em todas as culturas a magia era, no passado, praticada junto com a religião - podendo ser praticada de forma separada também.

O Pajé, que um Xamã, é o representante mágico e religioso de uma tribo. Nas culturas Africanas nós encontramos os sacerdotes que são também praticantes de magia e os praticantes de magia que não necessariamente conduzem um grupo de sacerdotes.

Nós vemos em culturas antigas como a cultura Celta, que é a cultura que antecede o Cristianismo, uma religião mágica, aquela imagem do Merlin é a imagem de um Druida, o Druida é um sacerdote na cultura Celta e esse sacerdote é um praticante de magia – quem não assistiu recomendo que assista Brumas de Avallon – onde a presença das mulheres praticando magia era muito forte.

Na cultura Nórdica, na cultura indígena, em todas as culturas aborígenes você vai ver a prática de magia, as religiões organizadas, as grandes instituições religiosas não incentivam a magia e não incentivam a prática mística como o transe, por quê?

 Porque quando um religioso tem um contato direto com a divindade ele não precisa mais da organização religiosa.

Quando um religioso entra em transe místico com a divindade ele não precisa mais do Templo e nem do sacerdote, não precisa mais de ponte, Deus não está mais no Templo, está dentro dele e aí este religioso só continua no Templo e na religião se ele estiver ali por amor e em muitas organizações religiosas, as pessoas permanecem por medo, medo do diabo, medo da vida descambar, medo de toda Teologia do terror colocada em cima da pessoa, medo de não ser mais perdoado e não ser absolvido mais dos seus pecados.

 E quando o adepto começa a praticar magia ele mesmo começa a manipular as forças e os elementos, ele sai da postura de ovelha para a postura de leão, sai da postura de galinha para a postura de águia, ele sai da postura de passivo para a postura de ativo e isso não interessa para as grandes religiões organizadas.

As grandes religiões pretendem conduzir ovelhas, pessoas passivas porque não dá trabalho conduzir ovelhas, você só precisa tomar conta dos lobos para eles não atacarem as suas ovelhas e colocarem os cães de guarda tomando conta das ovelhas, então, esses cães são os sacerdotes que tomam conta das
ovelhas.

O pastor é uma imagem mítica porque se chama o sacerdote de pastor, mas nas grandes religiões eles estão mais para o cachorro que toma conta do rebanho e o pastor é Jesus, ele é o grande pastor, ele é o divino salvador.

Jesus é a figura do pastor, o grande pastor conduzindo o rebanho com os cachorros em volta evitando que os lobos ataquem, então, diz para o rebanho: “Aqui vocês estão protegidos, os lobos não vão lhe pegar”.

Agora, quando você deixa de ser uma ovelha para ser um leão, você não tem mais medo do lobo e você não precisa do cachorro, não precisa do pastor e de nada mais porque você tem o contato direto com a deidade, mas você continua no rebanho se você tem amor por aquele rebanho, você vai ser um leão ajudando a conduzir aquele rebanho, essa é a postura de quem pratica magia, do praticante de magia, essa é a grande diferença, as grandes instituições não se interessam em ensinar magia, mas elas sabem que a magia existe.

Nas sinagogas se ensina religiosidade judaica, em algumas sinagogas existem estudos paralelos de Cabala ou Cabala Hebraica, nem todo rabino é um estudante da Cabala e nem todo Cabalista é um rabino, no Islã há o sufismo, mas nem todo Sheikh é um praticante Sufi, nem todo Cristão é um praticante de magia.

No caso da Umbanda, nós temos uma religião que é mística e mágica, aprenda e aprofunde-se nisso porque é uma oportunidade única, a nossa religião não é uma religião que tem uma grande instituição central querendo comandar todo mundo, deixe de ser ovelha, se torne um leão; deixe de ser galinha, se torne uma águia. Entenda que o Umbandista transita entre momentos nos quais a sua atitude deve ser passiva e momentos em que a sua atitude deve ser ativa.

Annapon


(texto baseado no curso de Teologia de Umbanda Sagrada – Desenvolvido por Rubens Saraceni – Ministrado por Alexandre Cumino -)

Funcionamento da Magia na Umbanda

No momento em que uma religião, como a Católica, assume o poder, e ela assumiu durante um bom tempo, essa religião começa a perseguir as outras e uma forma de perseguir é afirmar que a magia do outro é uma coisa demoníaca, isso é uma receita antiga.

Historicamente, quando o Catolicismo se torna uma grande religião, de poder, uma religião do estado, que tem o poder de perseguir, de castigar, naquele momento foi, por exemplo, criada a inquisição.

E por meio da inquisição essa organização persegue as outras religiões, os praticantes de outra religião. No olhar preconceituoso, a prática de outra religião é sempre de feitiçaria, de magia.

Nomearam de bruxos e bruxas todos que tivessem alguma prática religiosa de outra religião, uma rezadeira da cultura Celta era considerada uma bruxa, uma benzedora de outra cultura era considerada uma bruxa, alguém que soubesse trabalhar com ervas, com algum elemento da natureza, era considerado bruxo ou bruxa.

A Inquisição levou à fogueira os praticantes de magia de outras religiões e mesmo as religiões que insistiram em praticar a religiosidade que não fosse a  Católica.

Esta é uma página da história da humanidade que a Inquisição “escreveu” e é um momento em que a religião instituída assume uma guerra contra a magia e o que a magia representa, lançaram guerra contra a magia impedindo as pessoas de praticá-la, referindo-se à magia como algo que não presta, não serve, essa ideia foi incutida na cabeça das pessoas durante séculos e foi sendo trabalhada essa ideia de que magia não presta e de que qualquer magia é algo enganoso, embusteiro, que toda forma de magia, toda e qualquer forma de magia não é algo sagrado porque não pertence àquela religião e isso ficou no inconsciente coletivo.

Até hoje é muito difícil para muitas pessoas entenderem o benefício que traz a prática de magia, pra muitas pessoas ainda qualquer forma de magia tem uma conotação negativa, pejorativa, se você tem que fazer uma receita mágica, parece, para algumas pessoas, que se sentem como se estivessem fazendo algo errado por estar praticando magia. E a diferença do certo e do errado é a intenção.

Fala-se na magia branca e na magia negra, existem muitas formas de magia – e negra aqui não diz respeito à raça – mas, diz respeito à magia positiva e magia negativa, magia negativa há muito tempo foi e é chamada de magia negra.

Qual a grande diferença? A intenção.

A magia branca ou magia divina é feita com boa intenção, com a intenção de ajudar e a magia negativa é feita com a intenção de prejudicar.

 Dentro de muitas culturas, a grande diferença é a maneira de trabalhar.

Dentro do que nós chamamos de magia existem as magias naturais, ou seja, as magias ligadas à natureza que são as práticas de magia das religiões ligadas à natureza e aí nós temos: magia branca e magia negativa/ magia negra, aí tem magia astrológica, magia Celta, magia rúnica, magia Egípcia, magia Maia, magia Asteca, magia deste povo, magia daquele povo, magia dessa cultura, magia daquela cultura e aí também essas formas de magia vão assumindo nomes.

Por exemplo, hoje em dia a prática da magia Celta é chamada de wicca.

Se o Judaísmo tem a Cabala Hebraica e o Islã tem o sufismo, a wicca está para a religiosidade Celta assim como essas práticas estão para outras formas de religiosidade. A wicca é trazer, reviver a magia daquela cultura, daquele  povo Celta.

E em todas as práticas mágicas de diversas culturas a gente vê a manipulação de elementos, então, dentro da tradição da Cabala você tem a utilização de nomes sagrados, de palavras sagradas, de letras sagradas, de símbolos, de signos, o uso dos elementos, da vela, da verbalização, da vocalização de sons sagrados, da chamada de forças e poderes.

A Cabala Hebraica influenciou fortissimamente o que é chamado de magia europeia ou ala magica europeia onde, nessa cultura, na alta magia, há uma distinção entre teurgia e goécia, nessa cultura europeia mágica se diferencia magia branca como teurgia e magia negra como goécia, é dito que na teurgia se trabalha com Anjos e na goécia se trabalha com demônios.

E há um tipo de magia em que você trabalha com teurgia e goécia ao mesmo tempo em que se formam signos pantáculos, signos cabalísticos, estruturas simbólicas de magia onde você evoca o poder de um demônio cercado por um poder de um Anjo, então, isso é chamado também de uma forma de alta magia.

Por que trabalhar com Anjos e demônios?

 Acredita-se que a força dos Anjos é manipulada por meio da magia ou trabalhada por meio da magia para atingir objetivos espirituais e divinos, e a força dos demônios é para atingir objetivos materiais ou profanos.

Para trabalhar a força de um demônio nesse tipo de magia, você trabalha com a força de um anjo e aprisiona a força do demônio construindo um pantáculo, um círculo mágico com outros círculos dentro - como uma cebola - nos círculos de dentro estão as forças dos demônios e ao redor as forças dos Anjos, no centro fica o praticante de magia que evoca o Anjo e evoca um demônio, o demônio é obrigado a obedecer a sua ordem sob a força e a presença do Anjo.

Muita gente, na Umbanda, já estudou sobre teurgia e goécia, e trouxe para a Umbanda como Aluísio Fontenele em 1950 quando começou a aplicar isso na Umbanda considerando a linha da Esquerda como goécia e linha da Direita como teurgia, ele comparou os Exus aos demônios e os Orixás aos Anjos e ele considerava que o trabalho mágico de Umbanda devia ser feito dessa forma, evocando Exus como demônios e invocando Orixás como Anjos numa magia Cabalística imitada, copiada ou inspirada pela alta magia que mistura Anjos com demônios, teurgia com goécia, no entanto, nossos Exus não são demônios e a nossa magia não é magia europeia, então, é bom estudar outras tradições, mas nem sempre o fundamento de outra tradição pode fundamentar a nossa religião, existe uma magia que é a Magia de Umbanda que se auto explica, é uma magia divina, é uma forma de teurgia, mas os Orixás são divindades, são muito semelhantes aos Anjos, mas não são tratados na Umbanda da mesma forma que os Anjos são tratados no Catolicismo ou da forma como os Anjos são tratados na Cabala Hebraica.

Nossos Exus não são demônios, eles lidam sim com os aspectos mais materiais da vida também, não apenas, mas, a maneira de tratar um Exu não é à maneira da goécia ou da magia negra tratar um demônio. Exu não é escravo do Orixá, não se coloca Exu para trabalhar por obrigação, forçado pelo poder incisivo de um Orixá que o obriga a trabalhar, não, Exu trabalha comigo porque é minha entidade e o Orixá Exu não é um demônio, Orixá Exu é uma divindade, é um Orixá assim como Oxalá.

O sufismo tem práticas mágicas muito parecidas com a Umbanda, mas não é Umbanda, eu posso estudar a obra de Eliphas Levi, mas essa obra não explica a magia da Umbanda “Dogma e Ritual de Alta Magia” – Eliphas Levi publicado pela editora Madras é um livro excelente, mas esse livro não explica a Umbanda, os dogmas de Levi não são os dogmas da Umbanda, para Levi a mulher não pode praticar magia, na Umbanda a mulher pratica a magia, aí tem Umbandista que lê Levi, depois escreve livro de Umbanda dizendo que mulher não pode praticar magia, que bobagem é essa? Porque foi buscar um fundamento alheio, eis a resposta.

Você pode ler o livro magos de Francis Barret, um livro de 1801 que foi publicado pela editora Mercúrio, você pode ler, mas não é Umbanda. Você pode estudar o wicca, mas não é Umbanda. Você pode estudar muitas práticas diversas de magia, você pode estudar a Cabala Hebraica a fundo, mas não é Umbanda.

 A Umbanda possui uma magia que se auto explica. É certo que no passado não tinha por onde estudar a magia de Umbanda e todos aqueles que se interessaram pela magia de Umbanda, por falta de uma literatura mágica de Umbanda, buscaram estudar a magia em outras culturas, isso ajuda a entender a magia da Umbanda, mas também pode atrapalhar.

Quando você pega a dogmática de outra religião, os dogmas de outra prática de magia, aí traz pra dentro da Umbanda, que é uma religião mágica, mas que não possui dogmas – dogma é uma verdade que tem que ser aceita sem contestação. Então, tudo na Umbanda é passível de ser questionado e contestado por isso que não tem dogma, dogma é uma verdade que tem que ser aceita porque Deus quis e ponto final.

A Umbanda tem magia própria, desde o começo da religião se fala em magia, desde Zélio de Moraes, desde Leal de Souza – o primeiro autor de Umbanda – o primeiro livro de Umbanda publicado chama-se: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, publicado em 1933, nele já está a magia.

Em 1944, vários autores defendem a Umbanda como magia branca, Lourenço Braga afirma no seu livro Umbanda e Quimbanda: “Umbanda é magia branca, Quimbanda é magia negra” – não vamos entrar no mérito da Quimbanda – mas, a questão é: a Umbanda sempre foi vista como uma prática de magia, magia religiosa e religião mágica pelos seus praticantes, mas houve aqueles que misturaram os fundamentos como os de Aluísio Fontenele, misturou o conhecimento da goécia europeia com a Esquerda da Umbanda e com a Quimbanda.

É algo que dá pra praticar?

 Dá para praticar, mas você buscou um fundamento alheio, hoje a magia de Umbanda é uma forma de teurgia quando trabalha com os Orixás, a magia da Umbanda é uma forma de alta magia quando apresenta uma ciência, a magia da Umbanda é uma magia natural quando busca as forças da natureza, a magia da Umbanda é uma magia autêntica e divina no momento em que ela tem fundamento próprio.

Hoje existe literatura de Magia Divina de Umbanda.

Há uma magia da Umbanda que é uma Magia Divina, a Magia Divina de Umbanda é a magia que dá acesso aos mistérios, mistérios relativos e pertinentes as forças e os poderes que se manifestam na Umbanda – poder é a manifestação de uma divindade, força é a manifestação de uma entidade –

Na Umbanda se trabalha com a magia das sete chamas sagradas que é o elemento fogo, com a magia do elemento água, magia do elemento terra, com a magia do elemento ar, com a magia do elemento cristalino, mineral e
vegetal.

Na Umbanda se trabalha com magia dos sete elementos. Na Umbanda se trabalha magia da Fé, do Amor, do Conhecimento, da Justiça, da Lei, da Evolução, da Geração.

 Na Umbanda se trabalha a magia de Oxalá, de Oxum, de Oxóssi, de Xangô, de Obaluayê, de Nanã. A magia do mistério do Caboclo, a magia do mistério do Preto Velho, a magia dos movimentos, a magia da dança, a magia do som, a música de Umbanda é uma verdadeira magia, a magia que há e é praticada por meio do fumo, por meio da bebida, dos símbolos, dos gestos, das palavras, das oferendas, magia de símbolos.

O Preto Velho está incorporado batendo o pé no chão, tremendo a perna e batendo-a no chão, é uma magia e um mistério. E tem o momento em que a entidade pega uma pemba risca um ponto no chão e aí ele coloca água, coloca erva, tem a magia das sete ervas sagradas, a magia das sete águas sagradas, a magia de cada elemento, força, símbolo, de cada signo.

A magia de Umbanda é uma ciência porque existe uma técnica para se trabalhar essa magia e isso acontece de uma forma muito natural.

Como preparar uma defumação?

A defumação é uma prática mágica, implica no conhecimento de uma ciência. O que faz a defumação? Faz a limpeza e a purificação do ambiente por meio da queima de ervas ou de resinas.

Quando a resina do incenso queima em cima de um carvão em brasa, aquela fumaça que exala vai carregada das propriedades aromáticas dessa resina, desse incenso que tem a capacidade de limpar, purificar a energia negativa no ar, é uma magia que trabalha no ar.


Há ainda a defumação pra acalmar o ambiente com camomila, capim limão, melissa ou uma defumação pra queimar e purificar energias de pensamentos viciados como casca de alho, casca de cebola e casca de limão juntos, isso é bom contra comportamentos viciados, formas de pensamento viciada, viciação em alguma coisa ou vício: casca de limão, casca de alho e casca de cebola.

A defumação para a espiritualidade é feita com ervas de Oxalá, para o amor ervas de Oxum, para o conhecimento de Oxóssi, para justiça de Xangô, o olíbano que é o incenso, tem propriedades que agem no sistema nervoso central e que ajudam a pessoa a entrar num comportamento reflexivo, a essência aromática do incenso age no cérebro, no mental, acalmando e ajudando a entrar num estado mais contemplativo, há uma ciência.

Quando você defuma, você deve defumar de dentro levando a fumaça pra rua, há uma técnica, isso é magia, uma defumação bem feita limpa totalmente uma casa, é magia.

Os nossos Guias trabalham com velas, a maneira como ele usam uma vela é uma magia, uma técnica, com uma vela na mão ele limpa, descarrega, corta, encaminha, tira uma demanda, chama uma força, encaminha uma força, isso é magia.

Em algumas culturas indígenas Americanas – Norte Americanas – o índio quando vai rezar ou praticar magia, ele se recolhe e leva o seu cachimbo. E aí quando ele vai rezar, ele diz assim: “Vou fumar”, fumar é um ato mágico, fumar é um ato religioso, sagrado.

Quando você profana isso o resultado é a dor e o vício, é um ato mágico na religião acender um charuto e fumá-lo, não é pra tragar, você não vai tragar essa fumaça, essa fumaça é uma defumação direcionada.

Na hora que o Caboclo sopra, ele está colocando ali a sua intenção de limpar, de curar, de encaminhar, de realizar algo com aquele sopro, há um poder no sopro, o sopro é o hálito divino, o poder, a intenção.

Quando o Guia sopra é Magia Divina porque ele pode soprar com a intenção do mistério da Fé, do Amor, do Conhecimento, da Justiça, da Lei, da Evolução, ele pode soprar um mistério desse ou daquele Orixá, ele pode soprar com a intenção de curar, de limpar e de purificar.

E quando ele coloca um elemento junto, que é o fumo, esse sopro está empoderado, elementalizado, o sopro está carregado de um elemento do fogo, da terra, da água, do ar, do vegetal, há poder nisso.

Não é a toa que uma entidade de Umbanda usa um charuto, ele usa, ele não deve ser viciado em fumar, quando usa bebida é a mesma coisa, a água ardente, o álcool tem um poder manifesto, é um fogo líquido, isso é incandescente, queima, é explosivo, tem uma energia, o álcool até bem pouco tempo é usado como elemento de limpeza e purificação, o álcool limpa e purifica por dentro e por fora.

Quantas entidades usam a bebida para limpar um machucado, pois antigamente era usado para esterilizar, isso faz parte da magia de Umbanda, são elementos da magia de Umbanda, assim como a oferenda, a firmeza.

Há uma técnica, uma ciência, isso é uma magia. Uma coisa é você rezar para Oxalá; outra coisa é você rezar e acender uma vela para Oxalá; outra coisa é você riscar uma cruz, colocar uma vela e rezar para Oxalá; uma terceira coisa é você escrever o seu nome no papel, colocar em cima da cruz, por a vela em cima, oferecer um prato de canjica para Oxalá e pedir para ele trazer de volta a esperança, a fé, a paz, a tranquilidade, é uma ação mágica, implica num conhecimento, numa técnica.

Os Guias de Umbanda quando estão incorporados estão praticando magia, o benzimento. O benzimento é uma forma de magia popular. O que é um benzimento? O benzimento consiste de uma oração em que a pessoa vai repetindo a oração e vai fazendo o sinal da cruz, por exemplo.

Tem benzedor que benze com arruda, com copo de água, benzedor que benze com uma faca, uma faquinha, um facão, com um cajado, benzedor que benze com um ovo, com uma chave na mão.

Com uma chave para abrir os caminhos, com uma arruda para tirar olho gordo, com um ovo para puxar toda carga negativa, benze você com uma faca, com um facão para afastar os inimigos, benze você com uma cruz para fechar o seu corpo. Isso é uma magia popular, cada forma de benzimento está usando um elemento diferente, está usando uma técnica diferente e a oração tem um verbo, então, tem a magia do verbo.

Todo verbo implica numa ação e está fundamentado na força desse ou daquele Orixá porque magnetizar e congregar pertence a Oxalá, cristalizar e descristalizar a Logunan, agregar a Oxum, conceber pertence a Oxum, diluir, renovar a Oxumaré, expandir a Oxóssi, concentrar a Obá, equilibrar pertence a Xangô, purificar pertence a Egunitá, ordenar pertence a Ogum, direcionar pertence a Yansã, transmutar a Obaluayê, decantar a Nanã, gerar pertence a Yemanjá, paralisar ou estabilizar pertence a Omulu.

Voce está fazendo uma reza para abrir o caminho. Quem abre? É Ogum. Pra fechar o corpo. Quem abre, fecha. Ogum abre o seu caminho, fecha o seu corpo. Você tem oração, oração de São Jorge em que diz: “Jorge sentou praça na cavalaria e eu estou feliz porque também sou da sua companhia. Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge”. Quais são as roupas e as armas de Jorge?

São principalmente as suas qualidades, pois você está fazendo uma oração de proteção, faça uma oração de proteção e vá fazendo o sinal da cruz – estou fazendo uma oração para São Jorge, para Ogum – então, pegue uma espada na mão ou uma faca na mão, um ferro e eu vou rezando e vou pedindo e dizendo “Que eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge”, a força dele, a presença dele está em mim, isso é uma oração mágica. “...estou vestido com as roupas e as armas de Jorge”, para quê? “...para que os meus inimigos tenham pés e não me alcancem”, “...para que os meus inimigos tenham mãos e não me toquem, para que os meus inimigos tenham olhos, mas não me vejam e nem pensamentos eles possam ter para me fazer mal”, tem verbos aqui, cada verbo está ligado a uma divindade diferente.

 Os órgãos, os olhos, os pés, as mãos, a ação de tocar, de correr, de ir atrás, eu estou evocando, estou chamando e estou pedindo que “...armas de fogo não me alcancem, cordas e correntes arrebentem sem me amarrar, facas e espadas se quebrem sem me tocar porque eu estou vestido com as roupas e com as armas de Jorge”, então, eu estou pedindo isso para mim, eu estou determinando, é um ato mágico, é uma magia popular, a oração é ritual.

Se eu pego um elemento, faço um símbolo, risco um ponto de Ogum, entro dentro, rezo dentro desse ponto, eu estou dando poder, estou empodeirando, estou dando ciência e técnica para minha magia.

 Para os benzimentos de “olho gordo”, você pode pegar um galho de arruda, mergulhando na água e vai rezando, por exemplo, dizendo que: “Com dois te deram, com três te tiro; com dois te deram com três te tiro; com dois te deram com três te tiro, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”. “Com dois te deram, com três te tiro; com dois te deram com três te tiro; com dois te deram com três te tiro”, “com dois” com dois olhos te deram olho gordo pra você, em cima de você, “com três” com os meus dois olhos e a minha arruda tiro: “com dois te deram e com três eu te tiro, com dois te deram e com três eu te tiro, com dois te deram e com três eu tiro”, esse é um benzimento, se parece com um mantra.

Você está dizendo que houve uma ação de dar algo ruim e você está, não pedindo que Deus te tire, você está dizendo: “Eu te tiro”, a ação é incisiva, é ativa, é altiva: Eu tiro o olho gordo. É uma magia popular, por que uma magia popular? Porque não tem um estudo da ciência, da técnica, passa a ser magia propriamente dita quando você estuda o verbo, aí você tem a magia da palavra, magia do som, magia da ação, magia do fator: tirar.

A Umbanda é recheada de magia, o altar é um recurso mágico onde há um portal.

O Caboclo, Preto Velho, Baiano, Boiadeiro, no altar abrem um portal, abrir portal é um ato mágico, eles abrem portais para as realidades paralelas no altar.

O Guia está trabalhando e ele vira, estala o dedo e você fala: “Ah ele está estalando o dedo, não tem o que fazer, não é? Ele só está estalando dedo”. Não, ele abriu um portal, ele abriu um campo de atuação, ele abriu um círculo no ar, ele soltou a fumaça e dentro da fumaça ele abriu um portal absorvedor de energia negativa. Ele envolveu você numa nuvem de fumaça, purificadora, limpadora, esgotadora do seu negativo, imantadora, irradiadora, que tem a força congregadora, agregadora, expansora, te envolveu. Ele está te limpando, dando um passe, rezando e fazendo um ponto cantado, é uma magia acontecendo.

O Preto Velho incorporado, às vezes, está dando passe e está cantando um ponto e aí nesse ponto, que ele está cantando, está chamando uma força, determinando aquela força, aí passamos para a magia do verbo, do som, a magia da palavra e aí se abre outro campo que é muito forte na Umbanda, a magia da música, a magia do som.

Para falar dessa magia da oração, olhar o benzedor trabalhando ajuda a entender porque o benzedor está trabalhando com o verbo e ali ele está determinando que vai tirar um olho gordo, que vai tirar um quebranto, o benzedor está determinando que ele vai curar o mal olhado e ele sabe que isso funciona, que cura porque ele tem a oração contra o mal olhado, que tem as chaves de acesso pra cortar o mal olhado.

 Quando a gente assiste um trabalho da Jurema ou do Catimbó, vemos a importância do fumo como erva de poder, quando o índio utilizava o fumo, ele colhia as folhas na natureza saudando a divindade regente daquela folha, daquele fumo e ele pedia força para aquela divindade para que na hora que ele estivesse queimando o fumo, fumando, o poder da divindade e do fumo estivesse junto dele.

O fumo é uma erva de poder, além de ser uma defumação direcionada, o Xamã utilizava o fumo como erva de poder, existem tipos de fumo que induzem a um estado alterado de consciência – que não é a utilização que a gente dá na Umbanda – mas, o fumo tem um poder relacionado a uma divindade, há a divindade do fumo, assim como há a divindade da jurema, da espada de São Jorge, da melissa, da malva, da arruda, da guiné, porque há divindades maiores como gênios da natureza que estão ligadas a cada uma das folhas, há a divindade Ossain que é a divindade das folhas, de todas as folhas, uma das oferendas para Ossain é feita com fumo, então, há uma ligação do fumo com Ossain, há uma ligação de Ossain com todas as folhas, há um poder que se manifesta por meio das folhas, por meio do fumo, fumar é um ato sagrado, é uma magia.

Quando uma entidade trabalha com uma pedra, nós temos pedras de várias cores, se a pedra é azul clara está no campo de Yemanjá, se é azul escuro está no campo Ogum, se é vermelha pode estar no campo de Xangô, pode estar no campo Ogum, se é marrom está no campo de Xangô, se é amarela está no campo de Yansã, um quartzo transparente cristalino está no campo de Oxalá.

Trabalhar com pedras implica numa magia das pedras e aí a entidade, com uma pedra na mão, abre um portal da dimensão daquela divindade, com as pedras você faz um triângulo de pedras ou um círculo de pedras, ou ainda uma estrela de cinco pontas com pedras, uma estrela de seis pontas com pedras.

Cada pedra dá acesso a um reino, a uma dimensão elemental, a pedra tem uma estrutura de cristalização, as pedras têm sete tipos de estrutura de cristalização, cada estrutura de cristalização está relacionada a um sentido da vida, a uma estrutura de uma tela planetária de um dos sete Tronos maiores.

Por meio do fogo, você entra em contato com o reino do fogo, com a dimensão ígnea, com os elementais do fogo, as entidades trabalham com os elementais da água, com os elementais do ar, mas com uma linguagem própria ou sem linguagem nenhuma com os encantados, trabalham com essas realidades paralelas.

A magia do som, do verbo,  pode ser vista quando uma entidade, com uma maraca na mão, vai fazendo um toque, uma marcação que ajuda no transe, que induz o transe. O atabaque quando tocado, ele tem ritmo, tem frequência, tem intensidade de toque, isso altera as ondas, a nossa frequência mental, a gente pode recorrer muito ao Xamanismo pra explicar magia.

Na origem do Xamanismo é larga a utilização da música, do som, o tambor Xamânico induz aos estados alterados de consciência é considerada uma prática mágica, a ciência de tocar o tambor e induzir um estado alterado de consciência.

Na cabala, quando você quer evocar um anjo, você canta o nome dele ou você faz um mantra, a ciência que há por trás dos mantras, da vocalização, da sonorização, esta ou aquela vogal implica em uma força, uma energia, o poder do mantra de parar a mente, a repetição mântrica faz a mente parar e entra num estado de frequência mais baixo para que o poder se manifeste no seu inconsciente, para que o seu consciente se revele, o tambor Xamânico é chamado de veículo porque ele leva o Xamã aos mundos desconhecidos, o tambor Xamânico é chamado de arco porque o Xamã se torna a flecha quando o tambor está tocando, o tambor Xamânico é chamado de cavalo porque ele vai levar o cavaleiro para os lugares desconhecidos.

O tambor é um instrumento de transe, para que se entre em estado alterado de consciência, o canto traz o verbo como poder realizador da ação, a cadência da música, a estrutura cadenciada de uma música faz o seu cérebro funcionar numa frequência diferente.

Está tocando o atabaque e o seu cérebro vai acompanhando e de repente a mente para de pensar, está só acompanhando a música e aí quando o seu cérebro está na frequência diferente, entra um verbo: vamos cortar, vamos purificar, vamos chamar a força de Oxalá e a mente vai buscar isso dentro de você, isso é uma magia, é um poder e ajuda no desenvolvimento do médium para melhor incorporar, o transe é quase que induzido para ele começar a experiência do transe, é praticamente induzido ao transe e a música, o toque ajuda a induzir: “Caboclo lá da samambaia onde está que não vem cá, mas ele mora na boca da aldeia arreia, arreia, arreia...”, “Araribóia, sucuri, dendê, onde está esse Caboclo que não quer descer? Araribóia, sucuri, dendê, onde está esse Caboclo que não quer descer?...”, “Eh eh eh boca da mata, deixa esse Caboclo passar boca da mata...”, você está induzindo o transe, você está chamando, está dando força para o médium “...deixa o Caboclo passar, deixa ele vir, deixa ele manifestar, por que você não vem, por que você não chegou”, é o poder do verbo, quer dizer: se abra, se entregue.

 A mente fica entregue ali e a palavra de ordem é: se entregue, deixa vir, deixa passar e a música vai te conduzindo e você vai se perdendo e há um ambiente, você foi defumado, aquele cheiro de incenso, de olíbano, a música tocando, isso é uma magia.

 Você está dentro de um Templo, um lugar onde você se sente seguro, é uma magia e se diz: “Agora, Caboclo incorpora, mostra tua presença, dê sua chegada, meu Pai”, é o poder do verbo, o transe está sendo praticamente induzido porque o médium ainda está em desenvolvimento.

 Depois que esse médium já é desenvolvido, o transe será conduzido, apenas dizendo que esse é o momento de incorporar o Caboclo, não tem que “puxar com saca rolha”, não tem que arrancar ele lá de dentro, não tem que fazer força, desgaste, nem ficar nervoso.

O couro é uma ferramenta de magia, o tambor, que é o atabaque, toca a música numa frequência de Xangô, de Ogum, numa vibração de Yemanjá e você desagrega uma energia negativa, você corta uma demanda, encaminha um espírito, chama a força de cura.

 O Ogã é um praticante de magia, magia do som porque ele está determinando a presença de uma força, está determinando um descarrego isso tudo é magia.

Annapon


( Texto baseado no Curso de Teologia de Umbanda Sagrada – Desenvolvido por Rubens Saraceni – Ministrado por Alexandre Cumino - )