Mostrando postagens com marcador tem um velho que protege na entrada do portão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tem um velho que protege na entrada do portão. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de abril de 2022

"Exu é mensageiro, verdadeiro guardião, tem um velho que protege na entrada do portão, pra alguns ele é Caveira e pra outros é João."

 "Exu é mensageiro, verdadeiro guardião, tem um velho que protege na entrada do portão, pra alguns ele é Caveira e pra outros é João."


Nenhuma descrição de foto disponível.- O derradeiro

"Exu é mensageiro, verdadeiro guardião, tem um velho que protege na entrada do portão, pra alguns ele é Caveira e pra outros é João."

- Suncê veio prosear velho amigo João? Quando vem até aqui é porquê a coisa tá feia.
- Salve Pai Antônio. E a coisa tá mesmo feia, o senhor não se enganou. O povo da terra insiste em apagar as luzes que acendemos e depois reclamam da escuridão.

- Mas foi sempre assim velho João Caveira e dificilmente vai mudar. O povo muda a tempada, vira as luas, mas num muda o jeito de caminhar. Acham que sabem de tudo e que sabem onde tão pisando.
- E o que podemos fazer agora por eles, quando se desesperam?
- Por eles? Ou por ele?

- Sábio Pai Antônio. Sempre sabe das coisas né?
- Não tem nada que passe no portão que suncê não saiba, mas não tem nada que se aconteça com nosso menino que eu não fique sabendo. São os impulsos, a raiva. Ele se perde aí.
- Tentei interferir, mas a cabeça dele tá um turbilhão Pai Antônio. Muita coisa na cabeça não sobra tempo pra achar as coisas no coração.

- Chama-se mágoa João. Se nada é feito do jeito dele, passam por cima dele, ele que não aprendeu a seguir regras se perde e se perde feio. É luz pros outros, mas pode ser escuridão se não cuidar. Tanto busca a paz esse povo, tanto buscam calma, tanta guerra encontram.

- Vim pedir ao senhor pra vir comigo. Ela também irá junto. Vamos tentar com que ele fique calmo e tenha decisões firmes. O que está por vir é duro, e ele precisará de toda a ajuda. O fardo é pesado.
- Como recusar ajudar um filho meu? Vamos agora mesmo. Acende um toco, faz um defumador e bota o moço da espada na proteção. É assim que ele se sustentará. Melhor que firmador é cabeça firme. Sem cabeça o povo não caminha.

- Maria está pronta e também está levando algumas coisas. Será um longo e difícil trabalho. E sem o senhor e sua sabedoria, a calma que traz pra ele, tudo fica ainda mais difícil. Ele sente o cheiro do palheiro e já se acalma.
- Poderia ser sempre assim se reparasse mais na espiritualidade e menos nos outros. Ele quer apressar o tempo de cada um. Acelera ele e os outros ficam é sem entender nada.

- Cada um tem um tempo. E ele sabe disso. Só não consegue parar com tanta coisa acontecendo. Como viver as coisas novas, se todo dia tem uma coisa nova? Sei que ele tem fé e um coração que não cabe no peito. Mas assim como o coração tem amor e fé, tem revolta e ferida.
- E quem cutuca ferida, faz sangrar né velho amigo? E quando sangra, é difícil controlar. Machuca. E filho machucado revida quando devia calar. A boca é maior que a vontade.

- Não quero interromper a conversa, mas já está na hora de irmos.
- Sim Maria. Podemos ir Pai Antônio?
- Deixa eu pegar meu toco e vamos alumiar de novo. Não tem vento que apague quando a proteção é forte.

" Era um cemitério, tério, tério, tério... "

Escrito por Rascunhos do Fabio de Souza.