sábado, 12 de setembro de 2020

AS CARTAS

AS CARTAS

Outro dia acordei com uma estranha urgência de ter cartas lidas. Não que eu seja do tipo místico, mas o barulhinho das cartas, a voz monótona da cartomante, o aroma de charuto barato – tudo isso me traz uma certa tranquilidade, me leva de volta à infância, quando minha mãe frequentava os terreiros de umbanda. Independente do que seja dito durante a leitura.
Por coincidência, encontrei uma feirinha mística logo após o trabalho… identifiquei logo a cartomante, pelos trajes. Sempre descuidadas, agasalhadas além da conta, sempre com blusas de lã de botão, são tão caracterizadas como as ciganas, à sua maneira.
Maneiras suaves e simples, por sinal, as com que ela me guiou à sua tendinha. E logo fui transportado para um pequeno mundo espiritual encravado no meio de um shopping center, com uma quente luz alaranjada – a cor do tecido da tenda – e uma mesinha com um caderno escolar pequeno, pequenos santos, uma taça de água, uma nota de 1 real, uma bala calibre 22 antiga, guias e colares. A moça anotou meu nome e data de nascimento com a letra redonda e infantil de quem não teve a oportunidade de permanecer muito tempo na escola.
Talvez seja por isso que gosto das cartomantes e ciganas – num mundo onde astrólogos ficam ricos e magos ingressam em academias de letras, ver uma pessoa humilde com o poder de ver o futuro é alentador.
Foi esse pensamento que ela interrompeu pedindo para cortar as cartas, um belo baralho com ilustrações medievais, plastificado há anos, com algumas cartas abrindo. Interessante ver essas cartas nesse estado, inteiras atrás de um plástico destroçado. Tentar trocar o plástico destruiria a carta, mas enquanto ela estivesse com ele, por pior que fossse seu estado, teria sua beleza intocada. Alguns de nós usamos máscaras para nos defender, assim como aquelas cartas de tarô.
Detalhes, detalhes, detalhes. A essa altura eu já havia suprimido o aroma de charuto, e a moça nem tão moça assim começa a ler, a primeira de uma série enorme de cartas. Como sempre, cartomantes erram no geral, mas acertam em detalhes perturbadoramente íntimos e nada óbvios. A leitura normalmente nunca é precisa o suficiente para trazer fé, apenas o necessário para trazer esperança. E, convenhamos, esperança é um fabuloso animalzinho – sobrevive com quase nada.
A maior parte do tempo fiquei absorto em meus pensamentos, sem prestar atenção nas observações. Eu precisava apenas do ambiente. Mas não pude evitar ficar com a nuca eriçada com a precisão de algumas delas. E, como sempre, ela sabia qual era meu orixá – nunca erraram.
Já no final da consulta, com a mochila às costas e uma mão abrindo a cortina da tendinha – uma lufada de ar condicionado entra, cheirando a freon – ela me pergunta se eu tomaria um banho de gengibre, caso ela me ensinasse como fazê-lo. Um agnóstico tomando banho de descarrego?? Sim, claro, como não? Não posso deixar de sorrir.
Antes de sair, contudo, faço a pergunta que sempre reluto em fazer em consultas de tarô, mas nunca consegui deixar de:
– Pode tirar apenas uma carta? Só para eu saber quem sou?
Sem se surpreender, talvez até com um sorriso de familiaridade, ela concordou e puxou uma carta ao acaso. Pela quarta vez em quatro consultas, a mesma carta aparece. Quanto será que está custando o gengibre?

DESTINO DE CINCO DIAS

DESTINO DE CINCO DIAS

Raimundo estava de mal com o mundo. Sempre resmungando, sempre reclamando de alguma coisa, mesmo que essa coisa estivesse certa. Não gostava de ninguém, e era odiado por todos da empresa onde era chefe. Queria mandar, mandar e mandar. Mas, Raiumundo era também um homem solitário, chorava todas as noites no escuro do seu quarto, com a televisão ligada, mas, com o pensamento sempre avoado. Dificilmente conseguia dormir sem a ajuda de remédios. No dia seguinte estava ele lá, reclamando com todos, como se eles fossem os culpados de sua solidão. De fato, era isso que ele pensava.
Certo dia passando pela rua avistou uma tenda cigana, e resolveu entrar pra ver se sua vida iria melhorar. Não acreditava muito nisso, mas, sua preocupação era tão grande que resolveu arriscar. Quando entrou na cabana, uma moça estava do lado de trás de uma bola de cristal, que estava sobre uma mesa redonda e pequena, e uma cadeira a espera de quem quisesse uma consulta. Raimundo sentou e a cigana logo percebeu em seus olhos o que ele queria saber – “veio saber porque anda tão sozinho, não?” – Raimundo balançou a cabeça num sinal de sim. A cigana continuou – “Você é muito impaciente, tem um coração muito fraco, precisa carregar mais energias positivas pra esse coração. Infelizmente o que eu tenho pra te dizer pode não ajudar muito” – Raimundo engoliu em seco , mas mesmo assim queria saber o que era , e a cigana traçou seu destino – “você tem apenas cinco dias de vida” .
Raimundo saiu de lá sem saber o que fazer, se acreditava realmente na cigana ou se ela estava mentindo, apenas para ganhar dinheiro. Esse pensamento ocupou todas as horas daquela noite, que não conseguiu dormir só pensando na hora de sua morte. Sua vida não era lá essas coisas, mas, morrer, não estava nos pensamentos de Raimundo. Ele precisava mudar, e se não fizesse isso, os últimos dias de sua vida poderiam ser como todos os outros.
Então Raimundo decidiu mudar, aproveitou a madrugada pra fazer a barba, escolher o terno mais bonito que tinha, um que ele estava guardando pra uma ocasião especial, arrumou sua casa, colocou uma música e estava tentando ser outra pessoa. Na chegada no escritório todos notaram sua boa aparência e ele cumprimentou cada um como se fôssem amigos de longa data. Todos estranharam, acharam que poderiam ser despedidos, pois, tratamento assim, só pra ser o último dia. O dia passou e nenhuma reclamação foi ouvida, apenas elogios, gentilezas e muitas risadas. Era incrível que uma pessoa pudesse mudar da água pro vinho assim de uma hora pra outra. Todos se perguntavam quem teria feito esse favor a eles.
Na volta para casa Raimundo estava cansado, de tanto que deu risadas, e de tanto que tentou mudar seu comportamento, mas, ele queria mais, queria aproveitar seus últimos dias. Chegando em casa pegou sua agenda e começou a ligar pra todos, amigos que estudaram com ele, ex-namoradas, para seus dois irmãos e até mesmo sua mãe, que se espantou com seu telefonema. Raimundo passou a tarde e a noite conversando e relembrando coisas que se passaram em sua vida que ele nunca havia dado conta o quanto tinha sido feliz. Naquela noite ele conseguiu dormir, depois de muito tempo, sem a ajuda dos remédios.
Acordou com o pio dos passarinhos e abriu a janela para admirar a natureza, o sol estava nascendo, aquele azul clarinho do dia vinha aparecendo lindo, enquanto algumas estrelas ainda brilhavam. Raimundo nunca percebera o quanto era bonita a natureza, e que vários dias que ele passou em branco, nunca havia se dado conta de como pode-se achar felicidade só de ver algo belo que a natureza nos proporciona. No escritório, ele fez o mesmo que ontem, foi gentil e educado com todos que falava, e dava dicas, era impressionante como aquele escritório estava alegre e tudo rendia muito melhor. Como havia feito com seus amigos antigos, quis começar a fazer amizades, e a saber um pouco da vida de todos que estavam trabalhando com ele. Pessoas que ele via todos os dias, e mal conhecia. No fim do dia convidou todos pra um happy hour por conta dele. Todos aceitaram claro. Lá, Raimundo viu mais gente, viu as pessoas felizes, conversando, dando risada, aquele cansaço do trabalho era esquecido quando se sentava numa mesinha de bar, com um choppinho do lado e umas batas fritas pra beliscar, um pagode tocando no fundo pra animar.
Raimundo percebeu o quanto a felicidade pode estar nas coisas pequenas da vida. Voltando pra casa, caiu na cama, e dormiu como um anjo.
Decidiu acordar cedo pqra ver novamente o nascer do sol, mas, a chuva caia forte lá fora. O céu estava muito nublado. Mas, a chuva tinha seu charme, a água que caia do céu fazia um barulho tão gostoso que dava vontade de ficar na cama, mas, Raiumundo ao contrário decidiu sair, como estava, e deixou a chuva cair sobre seu rosto, cantava, como se aquela água fosse um campo de energia que o revitalizasse, um banho de felicidade vindo do céu. Quando percebeu a hora saiu correndo pra casa, tomou banho e foi trabalhar. Era sexta-feira e todos já estavam cansados da rotina, loucos para ir pra casa curtir o fim de semana. Raimundo estava como há dois dias atrás, feliz e de alto astral. Todos já haviam esquecido o
Raimundo de antigamente, pois, por mais que tenham sido apenas três dias de alto astral, esse Raimundo novo é que iria ficar na mente de todos, pois aquele Raimundo rabugento, seria esquecido rapidamente. O fim do dia chegou e Raimundo não sabia o que iria fazer pra aproveitar, depois de tanto tempo em casa, já não sabia mais seus gostos. Decidiu abrir o jornal para ver as opções e o anúncio de um hotel fazenda chamou sua atenção. Pegou seu carro e colocou o pé na estrada no meio da noite. A viagem era longa, cansativa, mas, ele precisava fazer. Chegou de madrugada no hotel fazenda e quis o melhor quarto. Foi pra cama descansar mas acordou cedo , como todos os dias. O sol estava raiando, e ele decidiu ir pra piscina. O barulho da criançada brincando era como música para o ouvido de Raimundo, agora ele já conseguia ser feliz vendo a alegria dos outros. Decidiu também soltar seu lado criança e deu um belo salto na água. Parecia uma criança saltando, e nadando, plantando bananeiras. As crianças logo se aproximaram e ele brincava com elas, jogava água, colocou todas em seu ombro e competiu com elas pra ver quem ficava mais tempo embaixo d´água. A tarde Raimundo soube de um jogo de futebol com os adultos e foi lá no campo jogar . Marcou dois gols e ajudou seu time , que estava com camisa, a vencer o time sem camisa por sete a três. A programação do hotel era animada, a noite estava marcado o show de dois comediantes, e
Raimundo até entrou no show, convidado pelos dois, e ajudou a animar ainda mais o espetáculo, nem se importava com o que os outros iriam achar.
No último dia de prazo que a cigana havia dado, Raimundo ficou preocupado. Agora que havia descoberto as coisas boas da vida, não podia morrer, ele queria continuar assim. Pediu perdão a Deus pelo mal que ele transmitiu a todos antes de saber que morreria, e agradeceu por ter colocado a cigana em seu caminho pois se ela não tivesse dito que ele morreria, não teria descoberto tudo aquilo que não viu em tanto tempo.
Também pediu para que desse mais uma chance a ele, pois Raimundo estava feliz e era assim que ele queria ficar.
Passaram-se cinco anos, Raimundo agora é casado, tem duas filhas, é um pai excelente e um marido ideal. Continuava no mesmo escritório, que cresceu bastante, graças a mudança dele e a motivação que ele passava a todos que lá trabalhavam. Raimundo nunca mais procurou aquela cigana, não se importava em saber o porque ela havia dito aquilo, mas, ele sempre agradecia, por ela ter mudado o caminho de sua vida.
Hoje ele é feliz, pois sabe que tem que aproveitar ao máximo sua vida, olhando em sua volta, sorrindo para as pessoas, admirando a natureza e amando ao próximo, pois ele sabe que está em seu destino que o quinto dia irá chegar, e, quando chegar, ele terá certeza de que fez sua parte.
(Fábio Granville)

A CARAVANA DE LUZ – ELES ESTÃO CHEGANDO

A CARAVANA DE LUZ – ELES ESTÃO CHEGANDO

LIMPE SUA MENTE DE TODOS OS MAUS PENSAMENTOS
ABRA SEU CORAÇÃO PARA RECEBER A LUZ
AGORA FAÇA DELE UMA CLAREIRA EM MEIO A MATA.
LOGO ADIANTE ESTA A ESTRADA, O RIO LIMPO E SERENO PASSA ALI PERTINHO.
TUDO PRONTO, VAMOS AGUARDAR
OUÇA O TILINTAR DOS ARTEFATOS BATENDO UNS NOS OUTROS, OUÇA O TROTAR DOS CAVALOS, O RISO ALEGRE DAS CRIANÇAS, A VOZ FORTE DOS HOMENS E O CANTO DAS MULHERES.
A ALEGRIA ESTÁ CHEGANDO E COM ELA, A CARAVANA DE LUZ.
UMA A UMA AS CARROÇAS VÃO ENTRANDO EM SEU CORAÇÃO.
FORMAM UM CÍRCULO PERFEITO, SEM INICIO OU FIM, REPRESENTANDO A ETERNIDADE.
OS HOMENS SE APRESSAM EM ACENDER A FOGUEIRA QUE AGORA VAI AQUECER O SEU CORAÇÃO
AS MULHERS PROVIDENCIAM O ALIMENTO PARA A SUA ALMA
AS CRIANÇAS CORREM, BRINCAM E ESPALHAM ALEGRIA POR TODO O SEU SER.
TUDO PRONTO, O ACAMPAMENTO CIGANO SE INSTALOU EM SEU CORAÇÃO.
VOCÊ SE SENTE QUERIDA, AQUECIDA, ALIMENTADA, FELIZ.
A FESTA DESTA NOITE É EM SUA HOMENAGEM.
TODOS EM VOLTA DA FOGUEIRA, O CHEFE DO CLÃ INICIA UMA ORAÇÃO PARA AGRADECER A DEUS E A SANTA SARA PELO CORAÇÃO ENCONTRADO, TODOS AGRADECEM
AS CRIANÇAS SÃO AS PRIMEIRAS A SAIR CORRENDO FELIZES APÓS A ORAÇÃO.
O SOM DE UM VIOLINO CORTA A NOITE, AS CHAMAS DA FOGUEIRA PARECEM INICIAR A DANÇA.
OS MAIS VELHOS BATEM PALMAS, OS JOVENS SAEM DANÇANDO AO SOM DA MELODIA.
SUA ALMA CIGANA FALOU MAIS ALTO, VOCÊ RODOPIA FELIZ, A SAIA RODADA, O LENÇO, OS ANÉIS, AS PULSEIRAS SURGEM POR ENCANTO.
VOCÊ É UMA CIGANA
O TEMPO PASSA E VOCÊ NEM SE APERCEBE, FECHA OS OLHOS E SENTA PARA DESCANSAR.
AO ABRI-LOS O DIA JÁ RAIOU, A CARAVANA DE LUZ PARTIU.
QUE PENA, BEM QUE ELES PODIAM FICAR PARA SEMPRE EM SEU CORAÇÃO, MAS ELES SÃO CIGANOS, PARTIRAM EM BUSCA DE UM NOVO CORAÇÃO.
NÃO FIQUE TRISTE.
ELES DEIXARAM A FOGUEIRA, VOCÊ NUNCA MAIS SENTIRÁ O FRIO DA SOLIDÃO.
DEIXARAM ALIMENTO PARA ALIMENTAR SUA ALMA
DEIXARAM A ALEGRIA E É TANTA QUE VOCÊ PODE DIVIDI-LA COM TODO O MUNDO.
DEIXARAM A ESPERANÇA DE DIAS MELHORES, A SABEDORIA E A CERTEZA QUE VOCÊ ESTÁ PRONTA.
E POR FIM DEIXARAM A CIGANA QUE VOCÊ SEMPRE FOI, AGORA COM UMA MISSÃO.
A CIGANA TEM O DOM DA PALAVRA, DE SEUS LÁBIOS SAIRÃO PALAVRAS DE ESPERANÇA, DE FÉ, DE HUMILDADE, DE AMOR.
PALAVRAS QUE AQUECERÃO CORAÇÕES SOLITÁRIOS,
PALAVRAS QUE LEVARÃO A PAZ, QUE ILUMINARÃO CAMINHOS, PALAVRAS QUE ESPALHARÃO ALEGRIA E SANTA SARA ESTARÁ COM VOCÊ.
NUNCA SE ESQUEÇA DE DAR DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA ACABOU DE RECEBER.
UM DIA EM UM FUTURO DISTANTE, QUANDO SUA MISSÃO TIVER SE ENCERRADO, A CARAVANA DE LUZ VAI VOLTAR
E DESTA VEZ, PARA TE BUSCAR CIGANA

LENDA DAS SEREIAS, RAINHAS DO MAR

LENDA DAS SEREIAS, RAINHAS DO MAR

É noite de lua cheia maré alta, tempestade, os pescadores sabem que Iemanjá a rainha do mar esta dançando em cima das ondas. Quem a ver vai com ela para o fundo das águas, sua “Morada do Amor”. É tal a idolatria dos pescadores e moradores beira-mar pelas sereias, que suas mulheres sentem delas ciúmes.
Oguntê, velha guerreira amante favorita e apaixonada dos pescadores valentes.
Muitos, beira-mar já viram o esplendor do aparecimento de Marabô, que surge das águas em sua carruagem de cavalos marinhos, acompanhada de seus súditos, outrora pescadores, que a viram, por ela se apaixonaram e no fundo do mar a amaram.
Contam que um pescador foi morar no fundo com Caiala, no encontro do mar com o grande rio, rainha das profundezas.
Em outros lugares conta-se que a sereia Sobá, menina – moça, princesa do mar, foi vista em sua concha, onde guarda seus tesouros e seus amores. No fundo do mar, ela é considerada por muitos como a irmã mais nova de Oguntê.
Oloxum é às vezes vista até mesmo de dia, no reflexo do sol sobre o mar e a luz dourada do sol se reflete em seus cabelos de prata, proporcionando uma espetacular e mágica visão.
Em outras regiões, noite alta, beira – mar afora mesmo sem se ter tempestade no céu, sente-se no mar a presença e o encantamento de Inaê passeando prateada sobre as ondas de espuma branca.
Certo pescador um dia viu Mukunã, se enlaçou em seus cabelos e naquele emaranhado, se amaram… Como os outros, nunca mais voltou.
Num misto de encantamento e mistério, mar alto voa esverdeada a sereia Dandalunda, em um peixe voador, procurando seu amado entre os pescadores fortes e corajosos que se aventuram entre os seus saveiros mar alto.
Contam que um pescador viu Janaina, de longos cabelos prateados e não voltou.
Iemanjá é a mãe, a rainha dos peixes e a dona das fontes, dos pequenos e grandes rios, dos grandes e pequenos lagos, onde houver um pouco d’água parada ou corrente, seja ela doce ou salgada, é sempre constatada a presença da poderosa rainha de todas as sereias “Iemanjá”.
Se for noite de lua cheia, maré alta, tempestade, todos os pescadores se lançam ao mar, sentindo ao mesmo tempo, medo e desejo, fazendo suas promessas, todos querem ver sair das águas a sua rainha.

A CARAVANA DE LUZ

A CARAVANA DE LUZ

Noite cheia de estrelas
A lua clareia as aguas do rio que segue tranquilo em seu leito.
Logo adiante, em meio a uma clareira está o acampamento cigano.
O local previamente escolhido está calmo e sereno.
Esta noite os violinos estão silenciosos, não existem danças, a alegria se ausentou, o povo cigano está triste.
Em um dos carroções em seu leito de morte está Mirko, ao seu lado a fiel companheira de tantas lutas e viagens, Raquel..
A velha cigana, a curandeira da tribo ainda coloca sobre sua testa algumas folhas para aliviar a febre que aos poucos vai minando as forças do velho cigano.
Ela sabe que a sua luta é ingloria, o cigano está partindo, mas deixa a mulher, os filhos, os amigos ciganos e também uma lição de vida para os jovens da tribo.
Mirko um dos ciganos mais respeitados da nação cigana, cumpriu sua missão terrena e parte para o além.
Somente a velha curandeira consegue ver, que logo ali, pertinho está a nova tribo de Mirko, a caravana pronta para seguir viagem, esperando apenas o seu velho companheiro.
Um ultimo olhar para o alto, um sorriso apagado e Mirko ainda consegue dizer algumas palavras para a companheira.:
Minha fiel Raquel, parto em busca de novos campos, novas fronteiras, rumo ao criador, não chore, fique feliz por mim , fique feliz pela gente, eu consegui e te espero, algum dia volto para te buscar, cuide dos nossos filhos, mantenha unida a nossa família e o nosso povo.
Um longo suspiro e Mirko partiu rumo a eternidade.
É recebido por velhos companheiros, seus pais, amigos de outras vidas, todos unidos novamente.
Lágrimas de felicidade no rosto do cigano, estava de volta ..
Tudo pronto, o grupo está partindo e com eles velho companheiro e a Caravana de Luz que segue rumo ao infinito.

CIGANO IGOR DO RIO EUFRATES

CIGANO IGOR DO RIO EUFRATES

Sou um cigano errante, Filho do sol e da Lua, Quando nasci, me batizaram , na beira do rio Eufrates, Falaram em meu pequeno ouvido, o meu nome secreto, Me deram tantas virtudes, das quais me orgulho até hoje. Andei por muitos caminhos, E não encontrei o que tanto procuro, Mas não me canso de buscar, apesar dos espinhos Que ferem os meus pés , quando ainda está escuro.
Sou o filho da Lua e do Sol, Um pássaro livre a voar, Estou aqui, ali e acolá, Realizo caminhadas, sem nunca sequer me cansar. Pois meu destino é andar e voar. Voô nos meus pensamentos E vou onde me leva o vento, Vou ao encontro do amor, Que eu sei que existe em algum lugar. Preciso de um amor, Para encantar meus dias, Que não me esqueça e me chame, Que grite bem alto o meu nome e o repita mais vezes… Igor!…Igor!…Igor!….
Vem para mim, vem me amar! Sou o Rei e sou o Príncipe, de um Reino Universal Meu reinado nunca acaba, pois a minha coroa é a vida. Meu reino é feito de amor, de paz e de puro êxtase! Sou o caminheiro do tempo, pois faço qualquer roteiro. Pois o importante é nunca parar. Sou o primeiro e o último de todos os perseguidos Honrado ou deprezado, odiado ou simplesmente amado.
Sou o ruído e o silêncio : sou o pranto e a alegria. Sou o eterno caminho, sou o menino do dia e o amante doce da noite, Sou o alívio das dores, dos corações que amam, portanto se precisares, Basta apenas chamar pelo meu nome, nunca esqueça, o meu nome é Igor! Me chame…, me chame…, me chame.

UMA FOGUEIRA DE LUZ

UMA FOGUEIRA DE LUZ

Sabíamos que ela existia, que era perigosa, que matava muita gente por onde passava, mas eram apenas palavras que chegavam até nós trazidas por amigos de outras paragens e refugiados da guerra.
Por volta de 1915 ela adentrou em nosso acampamento, e tudo que diziam era verdade, meu povo quase foi dizimado por ela.
Os mais velhos e as crianças foram suas primeiras vitimas, a tradição teve que ser esquecida e os mortos eram enterrados rapidamente para não contagiar aqueles que ainda não tinham a doença.
Nesta época eu devia ter 15 anos e a vida sorria para mim, logo iria me casar com aquele para o qual eu fora prometida desde o meu nascimento, na verdade os preparativos e a festa já estavam em andamento, nosso país graças a Deus não estava participando da guerra que atingia toda a Europa e ela chegou sem ser convidada.
As mortes começaram a acontecer, em pouco tempo dezenas de irmãos partiram para a eternidade, não sei explicar porque fui poupada, estive ao lado daqueles que contraíram a doença, ajudei como pude, mas meu povo não tinha como escapar desta assassina.
O que um dia foi o acampamento cigano em muito pouco tempo virou um cemitério, poucos de nós escaparam, perdi todos que eu amava, ela levou minha mãe, meu pai, dois dos meus três irmãos, meus tios, meus amigos e aquele que um dia seria o meu marido.
Assim como chegou ela partiu deixando um rastro de morte e desolação, nós os sobreviventes partimos deixando tudo para trás, colocamos fogo em tudo que havia restado do que um dia foi chamado de nosso lar, ao longe dava para avistar a fumaça negra que consumia o nosso acampamento.
Éramos em talvez vinte ou mais pessoas que fugiam apenas com o que pudemos carregar, água mantimentos, a roupa do corpo e algumas moedas.
Pela estrada o que se via eram apenas outras pessoas que como nós haviam conseguido escapar da morte e muitos não iriam terminar a jornada, levavam com eles os sintomas da praga e com certeza iriam contaminar aqueles que estavam juntos na estrada fugindo do inimigo invisível.
Lívio um dos poucos homens de nosso acampamento que havia sido poupado assumiu a chefia do grupo e disse que deveríamos deixar a estrada e procurar um lugar para montarmos nosso novo acampamento. Todos concordaram afinal estavam cansados da caminhada, a sede e a fome estavam com a gente e alguma coisa tinha que ser feita.
Nos afastamos da estrada e entramos em meio a um bosque em busca do local, depois de uma boa caminhada encontramos uma clareira e paramos, não dava para descansar, portanto foram distribuídas tarefas para todos.
Meu irmão Niko teve a incumbência de encontrar água, outro cigano ainda jovem de encontrar comida e os outros ficaram para montar as barracas com galhos e folhas que haviam por toda nossa volta.
Naquela noite a sorte parece que se lembrou da gente, meu irmão voltou dizendo que havia encontrado uma fonte, ainda tínhamos mantimentos que iriam durar alguns dias e uma pequena fogueira foi acesa para aquecer os alimentos e a todos nós.
Mal sabíamos que aquela pequena fogueira iria mudar a vida de muita gente, apesar de pequena parecia um farol iluminando a noite e atraindo quem passava na estrada.
E eles foram chegando, pedaços do que outrora foram famílias, algumas crianças sem os pais, homens que haviam perdido a razão de viver, todos eram atraídos por aquela pequena fogueira e nós nos desdobrávamos para atender a todos e tentar dar um pouco de conforto para aquelas pessoas. Ciganos e gadjes juntos na desgraça, o preconceito foi esquecido, o amor à vida era maior que tudo.
Outros ciganos chegaram com suas carroças e montaram suas tendas, havíamos criado uma comunidade onde todos se respeitavam.
Em pouco tempo àquela clareira ficou pequena, arvores foram derrubadas e com a madeira construíam barracos, um dia chegou uma carroça de um comerciante com mantimentos e ele montou seu pequeno negócio, outros comerciantes também se instalaram por ali e a clareira foi aumentando até chegar a estrada.
No principio Lívio comandava e organizava aquela gente, mas com o passar do tempo ninguém dava atenção as suas palavras, o nosso pequeno acampamento estava virando um vilarejo, e crescia todo dia, agora a estrada passava no meio do local, já havia barracos do outro lado da estrada, a mudança era muito rápida, onde antes eram barracos casas eram levantadas do dia para a noite, comerciantes das cidades vizinhas traziam mercadorias para comercializar  ali e o povo cigano foi ficando distante, continuávamos no mesmo lugar, o que antes era o centro da clareira hoje era um canto esquecido.
Os ciganos que chegaram permaneceram unidos, assim nosso acampamento continuava apesar de tudo, aquelas crianças que chegaram até nós sem os pais continuavam com a gente, os outros foram se afastando e integrando o vilarejo. Só se lembravam do povo cigano quando alguém adoecia, mulheres em trabalho de parto eram levadas para os ciganos e acabei virando parteira, mãe das crianças órfãs, amiga daqueles que perderam tudo.
Nossa pequena fogueira era acesa todas as noites, mas já não fazia o mesmo efeito de outrora, muitas outras eram acesas pelos gadjes e o que se via era muita fumaça cobrindo o céu estrelado.
Meu sonho de um casamento feliz ficou no passado, se meu pai não mais podia me ver casando, se meu noivo estava na eternidade jurei jamais me casar e cumpri esse juramento até o fim dos meus dias.
A guerra finalmente terminou e todos comemoraram, alguns voltaram para seus paises de origem, outros ficaram por aqui, afinal era um porto seguro, a doença jamais chegou até nós mas, continuava matando em todo o mundo.
Aquela comunidade que existia estava acabando, o amor foi se distanciando, a intolerância voltou, ser cigano passou a ser sinal de raça inferior e abandonados na periferia daquele vilarejo íamos levando nossa vida.
Mas a nossa vida foi ficando insustentável, se havia um roubo no vilarejo colocavam a culpa nos ciganos, gadjes bebiam em demasia e vinham perturbar a nossa paz, ciganas eram desrespeitados em plena luz do dia, os comerciantes cobravam mais caro do meu povo, de repente nós éramos os intrusos e tudo faziam para demonstrar isso.
Então certa noite quando estávamos todos a beira da nossa fogueira Lívio disse:
– Aqueles que forem ciganos e também aqueles que hoje se consideram ciganos estão convidados, meu grupo vai partir amanhã, nosso lugar é na estrada e Santa Sara como sempre vai estar com a gente nesta jornada, portanto aqueles que quiserem preparem suas coisas vamos partir, vamos em busca daquilo que todo não cigano inveja, vamos aproveitar a nossa liberdade, acordar com o sol e dormir com as estrelas.
A resposta ao comunicado de Lívio foram gritos, palmas e todos começaram a arrumar suas coisas e no dia seguinte aquela mesma fogueira que ainda mostrava sinais de vida da noite anterior foi definitivamente apagada para renascer em outro lugar em outro acampamento.
A caravana cigana estava outra vez na estrada deixando para trás uma pequena cidade.
Sou Silvana, sou a amiga das piores horas, sou a parteira na entrada da vida, sou a mãe dos esquecidos, sou a conselheira e antes de tudo sou cigana.

A CIGANA CONXITA

A CIGANA CONXITA

É uma linda cidade, a cidade de Santa Cruz de la Sierra, na Bolivia.
Conxita estava no acampamento cigano. Quando se aproximou dele uma moça bonita, de olhos doces e voz suave, Conxita foi a ela e perguntou o que uma moça tão bonita estava fazendo ali. A moça respondeu:
_ Deixei minha terra e vim viajando para tentar a vida e ganhar dinheiro, para sustentar minha família.
Logo veio a amizade entre elas. Conxita disse para a moça:
_Pode ficar conosco, pois você não tem ninguém, nem dinheiro para viajar.
Cinco minuto depois, Conxita , que olhava a moça, disse:
_ Você parece minha irmã.
A moça perguntou onde estava onde  estava sua irmã . Conxita respondeu:
_ Ela abandonou o acampamento e foi atrás de um rapaz por quem estava apaixonada, e nunca mais soubemos do seu paradeiro. Você, querida parece muito com ela. Minha irmã quando nos deixou, tinha 17 anos. Hoje, ela estaria com 37 anos.
A moça espantou-se:
_ Que coincidência, Conxita! Minha mãe tem 37 anos e eu sou a copia dela. É estranho, mas na minha família só se fala nos parentes do meu pai. Nunca soubemos dos parentes da minha mãe.
Conxita mudou o assunto
_Vamos para a barraca, a tsara. Ali você ficará e de manhã levantaremos o acampamento.
Deixando a moça na barraca, Conxita, que se sentia estranha, foi falar com Bóris:
_ Boris temos uma moça no acampamento.
Boris respondeu:
_ Isso não pode acontecer, pois você sabe que não devemos deixar estranhos em nossa barracas nem no acampamento
Mas Conxita falou:
_ Essa moça se parece muito com Lilliaq. Tenho certeza de que é filha de minha irmã.
Bóris perguntou:  Tens certeza do que esta falando?
E Conxita disse:
_ Tenho. Ela é nossa sobrinha Boris.
_ Vamos esperar, Conxita. Amanhã levantaremos o acampamento e iremos para Cochabamba. Lá falaremos sobre isso. De manhã, os ciganos levantaram acampamento e a moça foi com eles. Depois de muitas noites e dias, chegaram a Cachambamba, armaram as tsaras e acenderam as fogueiras, pois já era noite. Boris chamou Conxita, Rochiel, Killiq e a moça para conversar, e aproveitaram para fazer-lhe perguntas. A primeira foi Conxita.
_ Querida como é seu nome?
_ Eu me chamo Sara Rodrigues.
_ Quem lhe deu este nome? Foi seu pai ou sua mãe?
_ Foi minha mãe, pois ela é devota de Santa Sara.
_ Querida como é o nome do seu pai?
Ricardo Rodrigues.
_ E de sua mãe?
_ Saramim Rodrigues. Por isso é que ela é devota a Santa Sara: pelo seu nome.
O segundo a fazer perguntas foi Rochiel.
_ Sua mãe tem na orelha direita uma bolinha como se fosse um brinco?
A moça espantou-se:
_ O senhor conhece minha mãe? Não é possível, ela está muito longe daqui!
_ Sua mãe gosta de sentar em cima das pernas?
_ Sim ela tem essa mania.
_ Você tem irmãos?
_ Sim, somos seis.
_ Qual o nome dos seus irmãos?
_ Eu sou a mais velha, Sara; o segundo é Ricardo, a terceira é Conxita. Foi por isso que me apeguei em você, Conxita, pois tem o nome da minha irmã. O quarto e quinto são gêmeos, Killiaq e Lilliaq; são nomes estranhos. Uma vez. Perguntei a minha mãe por que esses nomes, e ela me disse que, quando estava grávida deles, sonhou com um bando de ciganos; um rapaz dizia ser seu irmão seu irmão gêmeo e queria que ela colocasse o nome dele no menino e o dela na menina, e dizia que seu nome era Lilliaq e que o dele era Killiaq. E quando meus irmãos nasceram, ela colocou esses nomes. A sexta é Elizabette, que minha mãe dizia ser a deusa do Sol, mas nunca me explicou o porque dessa palavras.
O terceiro a perguntar foi Killiaq.
_ Não sei o que vou perguntar, pois estou emocionado com as suas respostas- Respirou, olhou a moça e perguntou:
_ Querida onde esta sua família?
_ Minha família esta no Brasil.
_ Seu pai é bom para sua mãe?_ E nesta hora seus olhos encheram de lagrimas que rolaram pela face.
_ Meu pai adorava minha mãe e foi muito bom para ela. Foi pena que não teve muita sorte no trabalho e não pode dar a minha mãe o conforto que ela merecia. Na hora de sua morte, ele falou: “ Saramim, queria ser um homem rico para cobri-la de presentes, pois você o merecia. Você é a mulher mais forte deste mundo, pois, por amor a mim, deixou tudo de lado. Eu a amo e sempre irei amá-la.” Foi quando ele morreu em seus braços.
Nesta hora, os ciganos choraram e abraçaram a moça.
Bóris pergutou-lhe:
_ Querida por que você veio para cá? Foi por estar sem emprego, foi por que?
_ Foi para tentar ganhar dinheiro e dar conforto a minha família, por causa das palavras de meu pai na hora da sua morte. Foi isso que me fez tomar esta atitude.
Todos os ciganos resolveram ajudá-la. Ela tornou-se uma cigana de fato, viajando para ali e para cá, fazendo previsões, lendo as mãos, pois ela tinha este dom desde menina; já na escola, previa as coisas para os coleguinhas; e não foi difícil aprender os hábitos e a doutrina dos ciganos. Depois de três anos, ela chamou Conxita e disse:
_ Irei para o Brasil, levar algo para minha mãe e meus irmãos. Conxita já decidi, vou trazer minha família para cá.
Então Conxita disse:
_ Agora é hora de nós duas conversarmos, querida Sara. Você é filha de minha irmã Lilliaq, que deixou o acampamento com o seu pai Ricardo Rodrigues. Sou sua tia; Boris, Richiel, e Killiaq são seus tios e sua mãe é gêmea de Killiaq. Quando você chegar a casa, vá com calma, para não ter problemas com sua mãe.
Sara voltou para o Brasil. Chegando a casa, contou tudo para a mãe, que caiu em prantos dizendo:
_ Não é possível que o destino tenha nos colocado de novo junto com meu povo! Será que eles ma perdoaram por ter abandonado minha doutrina e minhas raízes por amor, minha filha?
_ Sim, mãe; você é cigana e eles estão de braços abertos para recebê-la. Vim buscá-la, vou levá-la para junto dos seus irmãos, pois somos uma família cigana.
_ Ricardo não vai querer ir, já tem 21 anos e quer seguir seu caminho. Conxita está casada e já tem uma filhinha, não pode deixar o Brasil. Killiaq e Lilliaq estão com 19 anos e Elizabette tem 18 anos.
_ Mãe o que quer dizer Elizabette?
_ É a rainha do Sol, a deusa do Sol e do fogo, é o segundo nome de Salamandra, a rainha do fogo vivo.
Assim, partimos, eu, minha mãe e meus três irmãos.
Chegando ao acampamento, fomos recebidos com muito amor e carinho pela nossa família cigana. Conxita e minha mãe ficaram abraçadas por mais de cinco minutos e o Sol mandou seu raio de luz sobre a cabeças das ciganas. O cigano killiaq aprocimou-se de Saramim e disse:
_ Eu a perdôo por ter-me deixado. Somos filhos do vento e ele sempre traz o que levou.
Desde então, ficaram muito felizes.
Killiaq, passou a ajudar os tios a tomar conta da tribo; Sara se casou logo ficou grávida. Logo a seguir, Lilliaq ficou noiva, casando-se em breve; e. muito tempo depois, Elizabette se tornou a cigana mais famosa da Europa, sendo conhecida pelo o nome de Madame Lilliaq de Devison.
( está é uma historia verdadeira)
7
Extraído do livro: Mistérios do povo Cigano,
Autoras; Ana da Cigana Nastasha
               Edileuza da Cigana Nazira
Editora; Pallas Distribuidora Ltda.

SONHEI COM FOGUEIRAS….

SONHEI COM FOGUEIRAS….

Sonhei com fogueiras. Fogueiras ciganas. Numa clareira, uma fogueira ardia, uma cigana dançava. Rodopios hipnóticos e uma música animada. Eu sentado, do outro lado da fogueira, via a cigana através do fogo. Estava ali, com as mãos apoiando o queixo vendo a bela figura rodopiar, guizos e sons, cantorias e alegria em volta dela. Vestido esvoaçante, pés descalços, dançando à luz da da lua, meus olhos atravessando a fogueira, chegando aos seus olhos de fogo, que emanavam o milenar segredo cigano.
Seu nome eu não sabia, as pessoas ali presentes não diziam. Pensava ter ouvido seu nome por um instante, mas foi apenas o sussurro do vento ao meu redor. Ele citara um nome estranho, nome cigano que eu não conhecia. Citara muito baixinho no sussurro do vento, que o levou pelas árvores embora. Mas ela continuava a dançar, sem nome, sem nem pensar em parar. Seus pés levantavam poeira e desenhavam figuras no chão. Pareciam como as figuras na palma da minha mão.
Linha da vida, linha do tempo, linha indefinida. A música preenchia todo o vazio ao redor, seus olhos se cravavam nos meus como adagas furiosas, mas num furor de paixão, de uma cigana misteriosa.
De repente tudo ficou em silêncio, mas a dança continuava, agora mais eloquente. Parecia uma linguagem que traduzia o que a cigana queria dizer sem palavras, pois seu corpo falava o que ela tinha em mente. Uma misteriosa mulher, que muitos assim a viam, parecendo apenas mulher, mas que eu via através da fogueira, na sua dança ininterrupta, seu interior flamejante. Os homens ali, olhavam apenas o corpo, que parecia não cansar, eu olhava além da fogueira, o seu silêncio quebrado.
Ela fala, no silêncio, sem nem seu lábio mover, sobre o interior que ninguém conseguia ver. Passei a dizer para ela, não me lembro muito bem como foi que fiz isso, que a fogueira me mostrara, muito dela, muito mais além. Eu ouvia a sua voz, as palavras de seu interior, que a faziam bela e tão clara, quanto o fogo que a mim queimava.
Acordei do sonho. Sonhei com fogueiras… fogueiras ciganas.

Em busca do que já fomos, mas não lembramos.

Em busca do que já fomos, mas não lembramos.

De onde viemos?
O que nos trouxe a esse lugar especial de nome Terra?
Que tal regressar no tempo e visitar as culturas de onde certamente já participamos delas?
Imagine quantas vidas puderam acontecer antes de você ser quem é hoje?
Saberia reconhecer em você características dos seres do continente perdido, a Atlântida?
Imagine uma vida anterior como xamã nas campinas dos índios!
Conseguiria sentir as emoções de uma vida nômade na Índia de Buda?
A cidade sagrada de Macchu Picchu te remete no tempo e espaço?
Volte no tempo e veja-se invocando a Deus através das antigas orações judaicas.
A magia cigana e tudo o que se refere a este povo arrepiam o seu corpo?
Tente ouvir os sinos de orações nos monastérios tibetanos…
Teria você praticado rituais sagrados como druida na Escócia dos Celtas?
Alguma informação sensorial te liga ao calor e a beleza do deserto, no qual você pode ter sido um mercador árabe e aventureiro?
A memória cósmica informaria ter sido você uma nobre romana no palácio dos Césares?
E se tiver participado da construção das pirâmides do Egito e testemunhado o mistério que envolve aquele povo?
Enfim, nossas incontáveis vidas nos fizeram chegar à pessoa que somos hoje, lembra?
Tantas fantasias você já vestiu!
Em uma vida você pode ter sido um imponente rei.
Em outra, quem poderia garantir que não passou pelas dificuldades de uma monarca perdida num tempo onde os homens dominavam?
E quem poderia esquecer a vida nos campos de arroz da China?
Teria sido você uma sobrevivente do nazismo em Auschwitz?
Nossas vidas anteriores permitiram assumir características de homem, de mulher, lembra?
Seria possível acionar a primeira consciência de vida, que ainda está impressa no nosso DNA?
Lembra de quando você era apenas uma idéia?
Enfim, quem foi você?
Quem é você agora?