terça-feira, 1 de junho de 2021

COMO IDENTIFICAR UM BOM TERREIRO

 


Pode ser uma imagem de Margarida-do-cabo e naturezaEm primeiro lugar, entenda que nenhum lugar é perfeito. Seja qual terreiro você frequentar, sempre haverá algo que te desagrada. Cada pessoa espera alguma coisa diferente do centro, mas ninguém será capaz de suprir todas as suas expectativas. Portanto, não seja exigente demais, não abandone uma casa por um motivo menor.

A não ser que haja algum fato que vá contra os princípios éticos e o bom caráter, permaneça onde está. Você já fez uma boa caminhada, começar do zero em outro espaço pode não ser o ideal. Busquemos o progresso, não é saudável estagnarmos nos degraus iniciais do desenvolvimento espiritual.

Em especial, não dê tanta importância aos problemas de relacionamento. Eles estão presentes em todos os agrupamentos humanos e constituem uma de nossas maiores provações na Terra. Onde quer que caminhemos, sempre encontraremos uma pessoa abençoada que se atenta contra nossa paciência e serenidade. No entanto, é parte de nosso aprendizado espiritual saber lidar com estas questões.

Ao buscar um bom terreiro, o mais relevante é que você identifique se ali é observado os fundamentos maiores da Umbanda: ausência de cobrança por qualquer tipo de atividade espiritual, ausência de trabalhos que visam prejudicar o próximo ou interferir no seu livre arbítrio, e, por fim, a prática da caridade. Se estes princípios são cumpridos, um largo passo já foi dado.

Não tenha pressa para fazer parte da corrente mediúnica. Conheça bem o local, seus membros, seus frequentadores. Sinta a energia. Observe se você está saindo de lá melhor, se tem recebido bons conselhos. Recomendamos que fique ao menos 6 meses na assistência, antes de tomar a decisão de pedir ingresso. Algumas características só conhecemos com o tempo.

Conheça bem as regras do terreiro, compreenda como ele funciona. Uma vez que entre em suas fileiras, estará aceitando sua hierarquia e fundamento. Não adianta depois querer que ele seja diferente do que é. Você acabou de chegar, a casa não mudará só por você.

Acima de tudo, escute seu coração . Ele te dirá se ali é a casa certa. Confie nele,ele é um bom professor .Não contrarie sua intuição e pressentimentos.Não permita que a ansiedade te leve a uma deliberação precipitada. O terreiro é a nossa segunda casa; os médiuns nossa segunda família .Desse modo traga para a sua vida , bons companheiros.

Saravá todos !

@umbandacomsimplicidade
#Povodafloresta

segunda-feira, 31 de maio de 2021

ANINHA

 


Pode ser uma ilustração de criança e peloNaquele dia algo parecia não está normal
A criança acordou emburrada e não dava uma sequer palavra.
Ela se chamava Ana Clara, porém todos carinhosamente lhe chamavam de Aninha.
Era domingo e Ana ao contrário de todos os finais de semana não quis sair de casa para brincar com os amiguinhos.
A criança morava com sua tia Marta, pois devido alguns problemas, sua mãe não tinha condições de ficar com a criança.
Era hora do almoço e aninha se sentou forçadamente para tentar comer algo.
A criança era arteira e no primeiro deslize jogou toda a comida na lixeira do banheiro dizendo ter se alimentado.
Marta acreditou, porém preocupada com a criança resolveu perguntar o que estava acontecendo.
Aninha logo respondeu, tia eu não sei... Essa noite sonhei com uma bebezinha e ela disse que logo mais iria me buscar, eu gostei muito dela tia, vamos brincar e comer muito doce.
Marta ficou assustada e entendeu porquê a criança não tinha nem ousado sair de casa.
Anoiteceu e a criança dormiu sentava no sofá esperando a suposta bebezinha... Sua tia cansada envolveu a criança em um lençol e deitou a criança sobre a esteira.
Cansada das tarefas diárias Marta acabou por adormecer e acordando em um sonho assustador.
Uma criança chegava até ela, beijava suas mãos e dizia que era hora. . .
Falava que a pequena estava doente e que eles a levariam em segurança para o jardim dos erês.
Ao amanhecer Marta acordou desesperada atrás da pequena Ana e acabou encontrando ela sem vida sobre a grande esteira.
Aninha estava com um semblante doce e meigo, parecia está encantada em outro lugar e que logo iria voltar...
Hoje ela voltou na umbanda, com o mesmo nome e com o humor mais ácido.
Adora brincar com as outras crianças mas as vezes ainda assim prefere ficar sozinha chorando.

Texto: @contosdoorun
#Povodafloresta 

Vai Odé vai caçar sua borboleta: 🏹🦋

 


Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, animal e casacos e jaquetasOdé era somente um caçador.
E na casa de Ossain ele foi criado.
E desde menino procurava um amor.
Ele era só um Odé.
Mas ele tinha nome era chamado Onisewe.
E era um belo homem, pela mata ele vivia e em um belo dia ele avistou Uma mulher muito bela e por ela se apaixonou. Mas quem é esse Odé?
Eu sou Odé Onisewe.
Mas quem é esta mulher?
Eu sou Oyá Bagan;
Eles viveram juntos ele a ensinou sobre as folhas;
Ela o ensinou sobre os mortos e juntos viveram muitas coisas.
Ele a amava, Ela o amava
Mas o caminho dos Òrìsàs as vezes não se encontram e ela era solitária.
E um dia embora ela ia, e para Onisewe deixou o mais belo presente que podia, os seus tecidos cor de rosa;
O seu pó vermelho, o seu Irusin;
E ela ensinou o caçador, ela lhe disse: coloque o pó vermelho dentro do Irusin e sempre que bater o Irusin diga "Arole" e os Eguns vão se afastar.
E pelo meu amor a ti a morte não te conhecerá.
E até hoje há essa sorte, Odé não conhece a morte.
Ela então se despediu e seu corpo se desfez, e dela muitas borboletas brotaram e o corpo de Oyá se tornou uma revoada de borboletas que voaram. Onisewe não podia viver longe de sua amada e então as borboletas ele caçava.
E uma vez ou outra ele a pegava e assim ela retornava, mas logo partia ela é uma mulher que vive sozinha.
Mas ela deu a ele seus segredos, graças a Oyá Odé não conhece a morte.
Oyá Bagan conheceu o amor até os dias de hoje. Ele vem vestido de Rosa e com ides de cobre presenteados por Oyá.
E até os dias de hoje quando ele pega o Irusin o povo começa a gritar:
Arole! Arole! Arole!
Até os dias de hoje ele procura por sua amada Oyá. E ela por sua vez se deixa encontrar...
Oyá tem duas faces, uma terrível e turbulenta, outra doce e amável.
Odé só conhece o lado bom de Oyá, para ela Odé Onisewe é alguém que tem a chave de seu coração...
Vai Odé! Vai caçar sua borboleta!

Luciano Silva
#Povodafloresta

Oi tia Me chamo Maria, Maria igual a minha mãe sabia? Mas pode me chamar de Mariazinha... Mariazinha do Jardim!!

 


Pode ser uma imagem de pelo, criança, animal e ao ar livreOi tia

Me chamo Maria, Maria igual a minha mãe sabia? Mas pode me chamar de Mariazinha... Mariazinha do Jardim!!
Eu não me lembro de muita coisa tia, a mamãe sempre diz pra mim não falar disso porque eu sempre choro, mas eu vou te contar...
Minha familia era bem humilde e nao tinhamos aquele papel que vcs tem... (Dinheiro)
Eu sempre quis uma boneca tia, mas a minha mãe não podia me dar, meu papai trabalhava muito mas o papel dele era pra ajudar minha mamãe porque ela era muito doente...
Mesmo doente mamãe adorava me levar no jardim tia, eu amo o jardim, adoro correr atrás dos passaros e cheirar as florzinhas!
Um dia minha mamãe dormiu e não acordou mais, papai ficou muito triste eu também, eu tinha muitas saudades de mamãe tia, e tinha saudades de ir no jardim com ela! Papai havia se casado com uma mulher que judiava muito de mim e dos meus irmãozinhos...
Até que um dia meu corpinho ficou cheio de manchinhas, papai ficou desesperado e eu já nao conseguia nem falar, então fechei meu olhinhos e susurrei ao papai que tinha saudades da mamãe e do jardim, depois disso mamãe apareceu e me disse "Vamos passear no jardim?" E eu fui tia, as dores do meu corpinho se acabaram, eu tinha dormido...
Papai colocou meu corpinho no jardim ao lado do corpo da minha mamãe, nasceram varias roseiras bem bonitas e cheirosas e até hoje eu brinco no jardim com a mamãe. As manchinhas sumiram e as dores também tia!
Hoje eu venho em terra ajudar as criançinhas dodoi, e sempre ganho bala e doce quando ajudo elas! Mamãe sempre me acompanha e depois nós voltamos pro jardim! 🍃

Se precisar de mim, vá até um jardim, eu estarei lá, não esqueça da minha bonequinha tá tia?

Até outro dia tia vou voltar pro meu jardim !

Texto: @contosdoorun
#Povodafloresta

ITÃN* YEMOJA* * E O SEGREDO DO POTE*

 


Nenhuma descrição de foto disponível.Contam os mais velhos que Olokun tinha uma linda filha.
Ela era meiga, maternal e muito dedicada.
Era Iemanjá, a Mãe dos Filhos Peixes.
Olokun prometeu a filha a Olofin em casamento.
Aí, Iemanjá se casou com ele e se foi em sua companhia, pra as terras que ficam bem distantes do Okun-nlá, isto é, do Oceano.

No dia do casamento, Olokun presenteou sua filha com um pote. Mas avisou, com uma voz de quem sabia das coisas:
– Filha, guarda bem este pote. Se algum dia, você cair num perigo grave, ou tiver uma extrema necessidade, não vacile: quebre este pote e você vai ser socorrida imediatamente. Mas se lembre bem: só em último recurso...

Com o tempo, Olofin foi-se demonstrando um marido que tinha um ciúme doentio. A vida de Iemanjá ficou resumida apenas ao palácio real. Ninguém podia lhe dirigir a palavra sem autorização expressa do marido. E quando ele saía pras guerras de conquista, a esposa tinha de ficar trancada, em completo isolamento, até que ele voltasse. Foi então que Iemanjá sentiu necessidade de se libertar daquele cativeiro.

A lembrança de seu tempo de liberdade, vivido no reino de Olokun, aumentava ainda mais a sua dor. Afinal, como é sabido, não há dor maior do que, no tempo do cativeiro, a pessoa se recordar da liberdade. Pois bem: Iemanjá começou a pensar em fugir.

Tentou algumas vezes em vão, pois parecia que Olofin adivinhava seus pensamentos. Ele descobria a tempo qualquer coisa que ela planejasse.
Um dia, Olofin voltou coberto de glória de uma de suas conquistas e ofereceu um grande banquete a centenas de convidados. Ele bebeu vinho de palma até se fartar e dormiu embriagado.

Se aproveitando disso, Iemanjá fugiu do palácio. Mas ela não conhecia os caminhos do deserto e terminou se perdendo. E quando o dia amanheceu, ela nem sequer sabia onde estava. Nesse meio tempo, Olofin acordou, tomou conhecimento da fuga de Iemanjá e saiu procurando por ela, com muitos soldados.
Desta vez, ela ia voltar como uma prisioneira.

Quando Iemanjá avistou o exército do marido se aproximando, se deu conta da tragédia que ia lhe acontecer. Aí, ela se lembrou do presente que seu pai lhe deu, no dia do casamento.
Abriu a bagagem e retirou o pote. E quando Olofim mandou os soldados amarrarem a esposa, ela palmeou o pote e arremessou no chão. E aí, se deu o encanto: de repente, o Oceano se avolumou, invadiu a Terra e o deserto virou mar. Do exército de Olofim não escapou ninguém. Nem mesmo o próprio Olofim. Todos morreram afogados. Iemanjá voltou para o Okun-nlá e passou a reinar sobre todas as águas do oceano.

Os tiranos terminam sempre se afogando nas águas turvas de sua própria tirania.

Texto:Ruy do Carmo Póvoas
#Povodafloresta

ONILE A PRIMEIRA DIVINDADE DA TERRA.

 Os antigos povos que deram origem aos atuais iorubás ou nagôs, de cujas tradições se moldaram o candomblé no Brasil, cultuavam uma entidade da Terra, a Terra-Mãe, que recebeu muitas denominações em diferentes aldeias e cidades que formam o complexo cultural iorubá e seus entornos principais, entre os quais os jejes mahis e daomeanos e os tapas ou nupes e os ibos. Esta antiga divindade é até hoje cultuada e recebe o nome de Onilé, a Dona da Terra, a Senhora do planeta em que vivemos. Outros nomes da Terra-Mãe são: Aiê, Ilé, Ialé, também Ije, Ale, Ala, Aná, Ogerê, e mesmo Buku e Buruku. Entre os jejes do Maranhão e da Bahia é chamada Aisã. Creio que grande parte dos seguidores do candomblé nunca ouviu falar ou teve apenas vagas referências sobre Onilé, mas em certos candomblés de nação Keto, que preservam ou reconstituem tradições que em grande parte se perderam na diáspora iorubana, pratica-se um culto discreto, mas significativo a Terra-Mãe, para a qual se canta, ou no início do Sirê ou no final da chamada roda de Sòngo, a cantiga que diz “Mojubá, orisá/ ibá, orisá/ ibá Onilé”, que pode ser traduzido como “Eu saúdo o orisá/ Saúdo Onilé/ Salve a Senhora da Terra”. Onilé é uma divindade feminina relacionada aos aspectos essenciais da natureza, e originalmente exercia seu patronato sobre tudo que se relaciona à apropriação da natureza pelo homem, o que inclui a agricultura, a caça e a pesca e a própria fertilidade. Com as transformações da sociedade iorubá numa sociedade patriarcal ou patrilinear, que implicou a constituição de linhagens e clãs familiares fundados e chefiados por antepassados masculinos, as mulheres perderam o antigo poder que tiveram numa primeira etapa (um mito relata que, numa disputa entre Oyá e Ogum, os homens teriam arrebatado o poder que era antes de domínio das mulheres). Os antepassados divinizados tomaram o lugar das divindades primordiais e houve uma redivisão de trabalho entre os orisás. As divindades femininas antigas tiveram então seu culto reorganizado em torno de entidades femininas genéricas, as Yiá Mi Osorongá, consideradas bruxas maléficas pelo fato de representarem sempre um perigo para os poderios masculinos, e vários orisás tiveram dividido entre si as atribuições de zelar pela Terra, agora dividida em diferentes governos: o subsolo ficou para Omulu-Obaluaye e para Ogum, o solo para orisá-Oko e Ogum, a vegetação e a caça para os Odes e Osonyin e assim por diante. A fertilidade das mulheres foi o atributo que restou às divindades femininas, já que é a mulher que pari que reproduz e dá continuidade à vida. Constituir-se-iam elas então em orisás dos rios, representando a própria água, que fertiliza a terra e permite a vida: são as Yiagbás Yemonjá, Òsun, Obá, Oyá, Yewá e outras e também Nanã, que como antiga divindade da terra, representa a lama do fundo do rio, simbolizando a fertilização da terra pela água. Onilé teve seu culto preservado na África, mas perdendo muitas das antigas atribuições. Hoje ela representa nossa ligação elemental com o planeta em que vivemos, nossa origem primal. É a base de sustentação da vida, é o nosso mundo material. Embora sua importância seja crucial do ponto de vista da concepção religiosa de universo, os devotos a ela poucos recorrem, pois seu culto não trata de aspectos particulares do mundo e da vida cotidiana, preferindo cada um dirigir-se aos orisás que cuidam desses aspectos específicos. No Brasil, como aconteceu com outros orisás, seu culto quase desapareceu. Certamente um fator que contribuiu para o esquecimento de Onilé no Brasil é o fato de que este orisá não se manifesta através do transe ritual, não incorpora, não dança. Outros orisás importantes na África e que também não se manifestam no corpo de iniciados foram igualmente menos considerado neste País que, por influência do Kardecismo, atribui um valor muito especial ao transe. Foi o que aconteceu com Orunmilá, Oduwduwa, Orisá-Oko, Ajalá, além da Yiá Mi Osorongá. É interessante lembrar que o culto de Osonyin sofreu no Brasil grande mudança, passando o orisá das folhas a se manifestar no transe, o que o livrou certamente do esquecimento. O culto da árvore Iroko também se preservou entre nós, ainda que raramente, quando ganhou filhos e se manifestou em transe, sorte que não teve Apaoká. Na Nigéria mantém-se viva a idéia de que Onilé é à base de toda a vida, tanto que, quando se faz um juramento, jura-se por Onilé. Nessas ocasiões, é ainda costume pôr na boca alguns grãos de terra, às vezes dissolvida na água que se bebe para selar a jura, para lembrar que tudo começa com Onilé, a Terra-Mãe, tanto na vida como na morte. Um mito que já tive o prazer de contar em outras ocasiões ensina qual são a atribuição principal de Onilé, como ela está associada ao chão que pisamos e sobre o qual vivemos nós e todos os seres vivos que formam o nosso habitat, nosso mundo material. Assim conta o mito: Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumare. Vivia trancada em casa do pai e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os orisás seus irmãos se reuniam no palácio do grande pai para as grandes audiências em que Olodumare comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques. Onilé não se sentia bem no meio dos outros. Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem: haveria uma grande reunião no palácio e os orisás deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram esta ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento. Quando chegou por fim o grande dia, cada orisá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação, cada um mais belamente vestido que o outro, pois este era o desejo de Olodumare. Yemonjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola. Osòósi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Osonyin vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Òsun escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Osumarè mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Oyá escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Sòngo não fez por menos e cobriu-se com o trovão. Óòsàálá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante. Não houve quem não usasse toda a criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita. Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo. Cada orisá que chegava ao palácio de Olodumare provocava um clamor de admiração, que se ouvia por todas as terras existentes. Os orisás encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé. Onilé não se preocupou em vestir-se bem. Onilé não se interessou por nada. Onilé não se mostrou para ninguém. Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão. Quando todos os orisás haviam chegado, Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele disse então à assembléia que todos eram bem-vindos. Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo e que estava tão bonito que ele não saberia escolher entre eles qual seria o mais vistoso e belo. Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Então disse Olodumare que os próprios filhos, ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo. Então Yemonjá ficava com o mar, Òsun com o ouro e os rios. A Osòósi com as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Osonyin. Deu a Oyá o raio e a Sòngo o trovão. Fez Óòsàálá dono de tudo que é branco e puro, de tudo que é o princípio, deu-lhe a criação. Destinou a Osumarè o arco-íris e a chuva. A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra. E assim por diante. Deu a cada orisá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um. E disse que a partir de então cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza. Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao orisá que a possuísse. Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do orisá. Os orisás, que tudo ouviram em silêncio, começaram a gritar e a dançar de alegria, fazendo um grande alarido na corte. Olodumare pediu silêncio, ainda não havia terminado. Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições. Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos orisás. Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra. Quem seria? Perguntavam-se todos? “Onilé”, respondeu Olodumare. “Onilé?” todos se espantaram. Como, se ela nem sequer viera à grande reunião? Nenhum dos presentes a vira até então. Nenhum sequer notara sua ausência. “Pois Onilé está entre nós”, disse Olodumare e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava vestida de terra, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé, em sua roupa de terra. Onilé, a que também foi chamada de Ilê, a casa, o planeta. Olodumare disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé, pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa. A humanidade não sobreviveria sem Onilé. Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodumare partilhara com filhos orisás? “Tudo está na Terra”, disse Olodumare. “O mar e os rios, o ferro e o ouro, Os animais e as plantas, tudo”, continuou. “Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris, tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte”. Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi à sentença final de Olodumare. Onilé, orisá da Terra, receberia mais presentes que os outros, pois deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem. Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre, para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído. Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare. Todos os orisás aclamaram Onilé. Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.


E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos orisás1. E assim este mito, de modo didático e com muita beleza, situa o papel de Onilé no panteão dos deuses iorubás. Como é estrutural nos mitos, o tempo da narrativa não é histórico, dando a impressão que os cultos dos diferentes orisás foram instituídos a um só tempo, num só ato do supremo deus. A narrativa enfatiza, contudo, a concepção básica da religião dos orisás, isto é, que cada orisá é um aspecto da natureza, uma dimensão particular do mundo em que vivemos. Eles são o próprio mundo, com suas forças, elementos, energias e propriedades, mundo que tem por base Onilé, a Terra, o planeta que habitamos o nosso lar no universo.

Mito de Onilé.

Na África iorubá, Onilé ocupa lugar central no culto da sociedade masculina secreta Ogboni. A escultura em bronze aqui mostrada, provavelmente do século XVIII, é originária dessa sociedade tem os olhos em semicírculos, que tudo observam em silêncio, e as mãos fechadas e alinhadas, uma sobre a outra, na altura do umbigo, num gesto que simboliza o conhecimento ancestral, conforme os símbolos Ogboni, sociedade que, até o século XIX, cuidava da justiça, julgava criminosos e feiticeiros e executava os condenados à morte.

Louvar Onilé é celebrar as origens. Por isso, quando aparecem junto aos humanos, os antepassados egungun saúdam Onilé, lembrando-nos que ela é anterior a tudo o mais, mesmo às linhagens mais antigas da humanidade.

Onilé é assentada num montículo de terra vermelha, que representa o coração da Terra, podendo também ser montado com terra de cupinzeiro, que é trazida de dentro do solo pelos insetos trabalhadores, e que é vermelha. Dentro do montículo fixa-se uma quartinha com água, pois não há vida na terra desprovida de água. A quartinha dentro da terra simboliza que a água vem de dentro da Terra e que é assim a primeira dádiva de Onilé. A água que jorra do solo forma os regatos, rios, lagos e o próprio mar, de onde sobe para as nuvens e se precipita em chuva, voltando ao solo e subsolo, num ciclo permanente de propiciação da vida. O assentamento é coberto com moedas ou búzios, que entre os antigos iorubanos era dinheiro, representando toda a riqueza e prosperidade que está na Terra, que dela extraímos e na qual vivemos. Vermelho e marrom, cores da terra, são as cores apropriadas para colares de contas que homenageiam Onilé. Na África, os sacrifícios feitos a Onilé incluem caracóis, aves fêmeas e tartarugas (Abimbola, 1977: 111). No Brasil a legislação pune como crime inafiançável o sacrifício de animais ameaçados de extinção e assim a tartaruga é substituída pela cabra. Aliás, matar um animal em extinção seria uma ofensa imperdoável a Onilé, que é a própria natureza, a grande mãe da ecologia.

Além desses animais, dá-se para Onilé tudo o que a terra produz e que o homem transforma: obis, orobôs e todas as demais frutas, inhame e outros tubérculos, feijões, milho, favas, mel, dendê, sal, vinho e tudo mais que vem da terra pela mão do homem.

Cultuada discretamente em terreiros antigos da Bahia e em candomblés africanizados, a Mãe Terra tem despertado recentemente curiosidade e interesse entre os seguidores dos orisás, sobretudo entre aqueles que compõem os seguimentos mais intelectualizados da religião. Onilé, isto é, a Terra, tem muitos inimigos que a exploram e podem destruí-la. Para muitos seguidores da religião dos orisás, interessados em recuperar a relação orisá-natureza, o culto de Onilé representaria, assim, a preocupação com a preservação da própria humanidade e de tudo que há em seu mundo. Pois é Onilé quem guarda o planeta e tudo que há sobre ele, protegendo o mundo em que vivemos e possibilitando a própria vida de tudo que vive sobre a Terra, as plantas, os bichos e a humanidade.

Yami - minha mãe ancestral
#Povodafloresta

"Bolar", ou "cair no santo"

 


Nenhuma descrição de foto disponível."Bolar", ou "cair no santo", é indício da necessidade da futura iniciação. Geralmente acontece quando a pessoa participa de um "toque" e o orixá a incorpora, ainda no estado que os adeptos denominam de "bruto" (ainda não assentado ou "feito"). Bolar, aparentemente, é como desmaiar. Mas o orixá está ali. Tomou a cabeça de seu filho, mesmo contra a vontade deste, cobrando sua iniciação. A "bolação" geralmente acontece enquanto as pessoas cantam e dançam para os orixás, sendo significativa, para a identificação do orixá ao qual a pessoa pertence, a divindade para a qual se cantava quando a pessoa bolou.
Uma vez "bolada" a pessoa é levada para o roncó ou para o quarto de santo, onde será "acordada". Se depois de bolar uma ou mais vezes, a pessoa decidir se iniciar, o pai-de-santo consultará o oráculo (jogo de búzios) para determinar que orixá será feito e como (com que folhas, de que modo, com que quantidades, que animais serão sacrificados etc.). O pai-de-santo prepara o roncó com a esteira sob a qual serão depositadas as devidas folhas, as representações materiais do orixá (como quartilhões, alguidares, ferramentas, pratos etc.) e tudo o mais que será necessário durante o tempo do recolhimento. Só então é feito o "toque de bolar", quando o abiã (iniciando) será levado para o barracão onde, ao som dos atabaques, dançará para o seu orixá até que este incorpore. Bolado, o abiã será recolhido, para só reaparecer em público no dia da festa da saída.
Durante este período, o abiã vai sendo inserido no grupo através do aprendizado das práticas rituais. Aprende a hierarquia da casa, os tabus, os preceitos, orações para o seu e para todos os outros orixás, aprende cantigas, aprende a dançar para o orixá, aprende os mitos, os cumprimentos, suas obrigações, enfia contas para compor seus colares iniciáticos, reza, come e dorme. São vinte e um dias, em geral, em que ele permanecerá dia e noite na casa de santo, confinado ao roncó, dele saindo apenas para os banhos rituais ou outras cerimônias necessárias para sua purificação, como os ebós, que visam desligar o abiã de suas ligações com o mundo exterior, com as doenças, os mortos, a sexualidade, enfim, da vida anterior. Purificado o corpo, inicia-se o processo de assentamento do orixá, propriamente dito.

Dúvidas.

1- se eu bolar eu tenho que raspar ?

Não, existe o livre arbítrio do filho e se iniciar ou não é uma escolha pessoal.

2- Bolei em determinado barracão, isso significa que eu tenho que fazer meu Santo ali ?

Não, significa que o Orixá quer vc e sua iniciação, mas o ato de bolar poderia ser em qualquer lugar .

Força dos encantados
#Povo da floresta

Joãozinho é um menino que viveu mais de uma encarnação como garoto negro no Brasil das senzalas.

 Joãozinho é um menino que viveu mais de uma encarnação como garoto negro no Brasil das senzalas.

Muitas vezes ele parece o Negrinho do Pastoreio, em outras, ele é o próprio Saci Pererê! Ele é esperto, cheio de lábia, tem resposta pra tudo e não pensa duas vezes para perguntar alguma coisa. Como todo bom Cosminho, ele gosta de doces, refrigerante e brincadeiras, mas está sempre pronto para atender e socorrer a quem necessita...
Ele jamais deixa alguém sem resposta a um pedido. E se ele falar alguma coisa de forma séria, pode esperar que a coisa é mesmo séria! Pois ele brinca, mas não engana!
O Joãozinho desta Seara nasceu no estado do Ceará de mãe Africana. Chegou no ventre de sua mãe em um navio negreiro, no ano de 1670. Demorou para entender o que era ser escravo e vivia "aprontando das suas": escodendo objetos, correndo pela fazenda e cutucando os bichos. Apanhava muito por conta disso, mas não deixava de rir e de fazer das suas. Dizia que assim ele podia alegrar os outros escravos! E realmente era assim que ele passava os dias: alegrando e brincando com os demais.
Um dia, porém, em uma de suas traquinagens, ele escondeu o laço do capataz e foi o suficiente para ir pro tronco. Todos os negros pediram por ele, pois falaram que ele não fazia por maldade; mas não adiantou. Joãozinho anoiteceu e amanheceu no tronco... Ele tinha 6 anos na época. Quando tiraram ele do tronco estava triste e nunca mais sorriu. A partir daí começou a definhar e a morrer aos poucos. Quando ele desencarnou foi um luto só na fazenda! Até os animais sentiram... A terra secou, os bichos se aquietaram e ninguém mais sorriu. O dono da fazenda pediu ao capataz o que aconteceu e, quando soube, arrependeu-se... Mas, Joãozinho não voltaria mais. Sua mãe de tristeza também se deixou morrer.
Tempos depois, os escravos começaram a contar que viam mãe e filho a andar pelas terras... E sempre que alguma coisa sumia, diziam: "- Foi o Joãozinho!" Então eles colocavam um doce para o menino e o objeto reaparecia.
E assim Joãozinho ficou conhecido.

Eres
#Povodafloresta