Em 2008 eu perdi meu filho.
Ele sofria com depressão
Desde a adolescência.
Durante mais de dez anos
Eu e meu marido tentamos
de tudo para ajudar











Em 2008 eu perdi meu filho.
Ele sofria com depressão
Desde a adolescência.
Durante mais de dez anos
Eu e meu marido tentamos
de tudo para ajudar,
Mas sinceramente nós
não sabiamos o que fazer,
Não entediamos.
Ele tinha 23 anos quando
Desistiu da propria vida.
Não normal que os pais
Morram antes dos filhos.
Foi uma dor tão grande
enterrar meu menino...
Eu não lidei bem com isso,
Não consegui superar.
Um ano depois do acontecido
Eu ainda estava de luto,
Ainda chorava muito.
Então comecei a ter sonhos
Com meu filho.
Nestes sonhos eu o via
Sozinho em um lugar escuro
E frio, e ele ficava ali
Sentado no chão,
Abraçando os próprios joelhos,
Olhando para o nada com
O olhar perdido.
Os sonhos se repetiam,
Toda vez era a mesma cena.
Até que uma noite
Eu tive novamente o sonho
Mas dessa vez eu não sei
Explicar como mas...
Senti uma vontade enorme
De chorar e quando comecei
Meu filho me ouviu.
Ele olhou na minha direção
e começou a chorar e gritar
E eu não entendi as palavras,
Mas entendia que ele
Estava sofrendo.
Daí comecou a minha busca
Para ajuda-lo.
Primeiro fui a igreja católica,
Pois eu era uma católica
não praticante.
Mas lá me disseram coisas
Muito crueis sobre meu
Filho ter ido para o Inferno.
Fui para a igreja evangélica
Mas foi ainda pior.
Então minha irmã me levou
A um centro espirita mesa branca,
Porém lá eu também não
recebi a ajuda esperada,
Os médiuns eram muito...
Muito Fixos nas ideias cristãs
E ficavam falando coisas
Sobre o sofrimento no
Pós morte dos suicídas,
De ter de pagar, de punição,
Mas isso eu já sabia,
Eu não precisava de uma
Palestra, precisava de ajuda.
Mas felizmente nesse centro conheci
Uma senhora que era Umbandista
e que me disse para ir até
o terreiro dela para falar com
As entidades.
Eu fui, e lá conversei com
Uma Pombagira chamada
Maria Figueira.
Contei a dona Figueira
A minha história e perguntei
se ela podia ajudar meu filho.
Ela ficou um tempo calada
Pensando no assunto mas
No fim me disse que não.
Eu fiquei extremamente
Decepcionada, mas
Antes que eu fosse embora
Uma das moças que ajudavam
A Pombagira me deram um
Papelzinho onde estava
escrito um número de telefone
E o nome de um homem.
A moça disse que dona Figueira
A havia mandando me dar
O contato desse homem
Pois ele podia me ajudar.
Esse homem era médium
de Exu Giramundo.
Peguei o papel e coloquei
na bolsa, mas não liguei.
Estava já desistindo,
Já tinha ido a tantos lugares que
Não tinha mais esperanças.
Passado uma semana eu
Tive novamente o sonho,
E dessa vez meu filho
Se debatia no chão como
Se sentisse muita dor,
E seu rosto estava pálido
E as lagrimas que ele
Chorava eram negras como
Petróleo.
Quando acordei senti tanta
Tristeza que em um ato
De desespero apanhei o papel
na minha bolsa e telefonei
Ainda antes de amanhecer.
O homem atendeu, se chamava
Jéferson e era quimbandeiro.
Eu pedi desculpas pelo
Horário mas expliquei o
Que estava acontecendo.
Ele me disse para ir na casa dele
Na proxima noite,
E que levasse uma camisa
De meu filho.
Eu fiz o que ele falou,
As 20h eu estava lá
na porta da casa do homem.
Quando cheguei
Seu Giramundo já estava em
Terra atendendo outras pessoas.
Se vestia com uma capa vermelha
que ia até os pés
E ficava sentado em um
Toco de tronco de arvore.
Eu achei estranho, confesso
Que a princípio não botei
Muita fé.
Quando chegou a minha vez
Comecei a contar a minha história.
No meio do relato ele ergueu
A mão me pedindo para
Parar de falar.

Eu fiquei confusa,
Como eu saberia?
Como se lesse a minha mente
ele disse:

E eu contei como era,
Contei que era um lugar
De chao de terra arenoso
Onde so se via ao longe
Um céu noturno sem lua
Mas com muitas estrelas,
E fui falando tudo o que
lembrava.



O Exu pegou a camisa
Que eu tinha levado
E a cheirou, parecia
um cão farejando algo.

Ele fez com as mãos um
Gesto mostrando o tamanho.
Eu não sabia muito bem
Onde arranjar um bode,
Mas perguntando ao povo
Eu consegui achar
Onde comprar.
Liguei para o rapaz que vendia
animais e ele entregou em
Quarenta minutos um bode.
Eu tinha embarcado na história,
Pois de qualquer forma era uma
Chance, mas confesso que não
acreditava em nada do que
Estava acontecendo.
O Exu ficou com o bode
E me mandou voltar
dali dois dias.
Eu fui pra casa
Mas confesso que
Ainda mais incrédula.
Mas no dia marcado
Eu voltei até lá
E quando cheguei
O Exu estava já
atendendo mais gente,
E quando me viu disse
Que tinha de ser a última.
Fiquei esperando,
E quando a última pessoa
Foi atendida ele me chamou.
Ja passava da meia noite.
Fui com o Exu até uma salinha
No fundo da casa
Onde havia uma mesa
Com duas cadeiras
E uma janela com
Longas cortinas brancas.
A sala estava escura
E sobre a mesa eu vi
As quatro patas do bode.


Então o Exu mandou que eu
Olhasse para a janela
e dissesse se aquele era
Meu filho.
Olhei para a janela
mas não vi nada,
As cortinas balançavam
com o vento da noite,
E eu reparei como era
Bonito a luz branca
da lua entrando
E batendo nas cortinas.
E então eu olhei para
A cortina e nesse momento
Eu dei um berro,
Um misto de susto e de surpresa.
Atras da cortina
Escondido pela semitransparência
Do tecido estava um menino
De uns sete ou oito
Anos de idade.
Era meu Maciel, era ele,
Vestido com o uniforme
Da escola.
Meu filho morreu adulto,
Mas eu o estava vendo ali
Como criança.
Senti a mão de Giramundo
Segurando meu pulso,
E quando dei por mim
Eu estava em pé no meio da
Sala indo em direção a cortina.

Eu ofegante de tanto chorar
Sentei novamente na cadeira
E confirmei que era mesmo
O meu filho.

E eu respirei fundo
E mesmo soluçando um pouco
Falei:

Aquela figura de menino
fez um som ali atrás da cortina,
Um som curto e seco
Mas que eu entendi como "Desculpa".


Eu olhei para
O menino atras da cortina.

Então Giramundo foi ate a cortina
E se abaixou do lado dela.
Ouvi um chiado e percebi
que meu filho estava cochichando.
Giramundo inclinou a cabeça
na direção dele e começou a falar:


E a figura do menino
Foi ficando embaçada
Como se ele fosse dando
Passos para trás.
Até que sumiu.
Nunca mais eu tive aqueles
sonhos.
Ainda lembro do meu
Filho com muitas saudades
Mas não com tristeza,
Pois eu sei que agora
ele está em um bom lugar.
Giramundo é o Exu
Que pode entrar em qualquer lugar,
Até no vale dos suicídas.
E eu sempre serei grata
Pela ajuda que me prestou.











Memórias de Terreiro, Arte e texto pora Felipe Caprini











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